“Vida Noturna”


Tenho medo, pavor do saudosismo. Volta e meia me flagro voltando. É recurso, é saída, desafogo.

Quando olhamos pra trás, reinventamos, reciclamos, viramos ao avesso, redefinimos fatos, omitimos.

O passado muitas vezes é cúmplice dos desesperos do presente.

Quinta feira última, madrugada, saímos eu e o João Luiz Marques de um evento na Praça Roosevelt, frio, o frio de São Paulo.

Não foram poucas vezes que estive naquele lugar, em tantas outras madrugadas. Saímos da Roosevelt, e no caminho curto até a esquina da Araújo com a Consolação, vários pedintes, três, quatro, cinco rostos tristes, desesperados, ameaçadores. Pedindo comida, dinheiro, atenção, aquelas histórias todas juntas largada na rua.

Senti saudade de um medo antigo, medo de atravessar aquelas mesmas ruas, receoso de assalto, de violência, mas que não me impediu de conhecer cada palmo do centro em várias madrugadas.

Hoje, o medo é outro. Ele vem carregado de uma miséria maior, mais que pensada, planejada. Aqueles pedintes não são inimigos, mas são o nosso medo coletivo.

A madrugada acabou num UBER de volta pra casa. Protegido no vazio social do UBER.

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