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Arquivo mensal: março 2018

Primeiro domingo do outono de 2018. Fim de tarde, começo de noite quente.

Desço a pé da Paulista pra Barra Funda.

Angélica, pedacinho da higienolândia, Minhocão. As cidades dentro da cidade, as fronteiras que se misturam.

Nas bordas do Elevado, já noite, cruzo um senhor de óculos, sotaque nordestino, rindo e apontando um rapaz que recolhia umas latas à beira do corredor de ônibus:

– Olha como esse povo é inteligente, tá pobre por injustiça…

O sorridente senhor admirava a técnica do rapaz negro, esguio, que ágil, deixava as latas de cerveja no corredor e esperava o ônibus passar por cima, imediatamente as recolhia compactas e amassadinhas, prontas pra ensacar e levar pra venda.

Cheguei perto do ato e o rapaz seguiu com seu ballet da sobrevivência, sorrindo, uma formidável performance pra compartilhar à beira da General Olímpio.

Na cena toda três sorrisos, o do senhor nordestino, o meu e o sorriso negro, aquele da Ivone Lara, do rapaz das latinhas e seu swing todo particukar. Todos cumplíces.

Caiu a noite nos baixos do Elevado, a cidade quase sempre triste, muitas vezes nos reserva alegrias ligeiras, basta andar na rua, no chão do povo.

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Almoço na casa dos pais. Mãe e pai desandaram a falar da infância, estimulei. Ambos viviam no norte de Minas Gerais. Região de Pirapora, nos municpios de Coração de Jesus, Ibiaí, cercania do Rio São Francisco. Lugar de passagem de migrantes nordestinos, em grande número nas década de 1930.

Meu pai com a voz frágil de gripe forte:

– Eles chegavam em dezenas, baianos, cearenses, pernambucanos, dormiam embaixo das árvores, pescavam no Chicão. Ficavam meses, trabalhavam por comida…

Minha mãe emocionada:

– Eles precisavam de um banho, de comida, de atenção, chegavam doentes, com muito pouca ajuda se levantavam e seguiam.

A memória dos dois é cristalina, muitas vezes traída pelo tempo, mas clara. São registro vivo de uma parte sólida da construção do país.

Parte dos migrantes que viram passar pela região da sua infância chegaram aqui no sudeste para construir o que temos hoje. Eles dois também vieram logo depois e essa é parte da minha história. História de migrantes, de gente que andou pelo mundo.

Coincidência ou não ontem lá pelas 18 horas, um amigo citou a música “Police on my back” do The Equals, banda inglesa do anos 60, liderada pelo cantor Eddy Grant, que seria posteriormente regravada pelo The Clash em 1977 em seu primeiro álbum. A letra diz muito:

Well i’m running police on my back

I’ve been hiding police on my back

What have i done?

What have i done?

Parecia um background antecipado de uma notícia que viria horas depois: a execução da vereadora carioca Mariele Franco. Não, eu não estou fazendo nenhuma ilação arbitrária sobre quem matou Mariele, se foram as milícias, a polícia, o tráfico. Quem se indigna com a morte da Mariele é potencial vítima de ilações e atos arbitrários, raramente o veiculador.

Mas há algo na música do Equals que tem muito a ver com Mariele e sua trajetória. A canção fala de jovens estigmatizados que andam pelas ruas das cidades, fala da perseguição dos aparelhos repressores, fala de quem está exposto sem defesa, sem direito ao contraditório.

Mariele andava nas ruas e sabia o tamanho da violência sofrida por quem seguia os mesmos caminhos. Para quem se expõe diariamente, o gosto de sangue é real, não está no devir, é passado e presente. Era essa a bandeira e a luta de Mariele. Foi nas ruas que ela foi alvejada e deixou um vazio na luta.

A morte de Mariele se soma a milhares de mortes. De sem terra, sem teto, de lideranças de centenas de movimentos sociais, também dos jovens negros, dos jovens pobres que ela representava e defendia. O fato de estar no meio de milhares não esvazia o simbolismo da morte da jovem parlamentar negra mulher mãe carioca, só reforça.

Se não havia já somados uma série de motivos pra estimular uma resistência contra o golpe e suas opressões, já não há como se esconder dessa realidade. Essa manhã de 15 de março é amarga e dura, nos joga no chão, nos presentifica e torna ainda mais urgente a necessidade de reação.

#MarielleFrancoPresente

Todas as especulações em torno das eleições 2018, do impedimento de Lula pela prisão á vitória de Bolsonaro no primeiro turno, passando pela tal carta na manga da Globo/PSDB, ignoram completamente as eleições parlamentares, tudo é calcado na candidatura à presidência. É uma velha escrita nas eleições, que pode ser ainda mais danosa, no contexto, para o campo progressista.

A direita está em plena campanha parlamentar e não é de hoje, usa eficientemente a permeabilidade que as teses conservadoras têm na população, para tal conta com as polêmicas e os discursos bizarros que repercutem poderosamente, impulsionados tanto pela indignação como pela adesão. É uma campanha ruidosa e permanente em todos os veículos.

Enquanto isso a esquerda honra sua tradição autofágica, numa guerra pela hegemonia de um candidato majoritário e relega ao segundo plano uma plataforma comum que reúna os interesses dos trabalhadores e dos demais grupos vulneráveis. É possível conciliar os diversos projetos políticos do campo popular com uma pauta comum que envolva partidos, movimentos sociais e todos os segmentos progressistas, tendo como uma etapa a formação de uma bancada parlamentar.

Na semana que passou o ex prefeito Fernando Haddad sugeriu uma mudança nas regras eleitorais, que transferiria a eleição dos parlamentos para o segundo turno da eleição. Exatamente para deixar claro que tipo de bancada o vencedor do turno final teria para governar e que transfere a composição de uma maioria para o meio da disputa. Uma proposta polêmica e quase impossível de ser aprovada na atual conjuntura, mas que gera um debate sobre a composição das casas parlamentares.

Para além dos slogans precoces, a eleição de uma bancada menos conservadora ainda é possível e não vai ser construída com discurso personalista, niilista e pessimista e com ação despolitizada e desorganizada.

Andanças nos labirintos da indústria cultural.

Vejo na vitrine da Livraria Cultura (ultimamente não passo da vitrine) um LP (long playing) do Blondie, o Live X Offender, fina flor do punk art nova-iorquino 1977, espirito CBGB. A moça loira e os fellas rebeldes, a banda que galvanizou o caminho do punk rumo ao pop. O preço da peça: 150 golpinhos e noventa centavos. Não existe qualquer possibilidade punk na Livraria Cultura.

Na descida da Augusta, a banquinha de filmes piratas. Camelô simpático, tentando fazer minha cabeça pra levar quatro por vinte. Filmes do leste europeu, Sundance, clássicos, um bom apanhado. Escolho dois, pechincho, o escambo da vida é assim, prazeiroso. Cola na banca um casal, aquela pinta de hipster culturette sabe tudo de cinema. Bombardeiam o camelô com nomes de cineastas obscuros e filmes lado Z, alguns ele sabe, outros não. Fazem um muxoxo, a moça resmunga “é tudo pirata, né”? Vão embora destilando inteligência.

O camelô finaliza:

– Aqui é meu ganha pão, mas não dá tempo pra saber tudo – sabedoria das ruas.

Paguei os filmes e agradeci o aprendizado.

O punk é o camelô.

Eu acompanhei de longe, de soslaio o julgamento do pedido de habeas corpus de Lula no STJ.

Foi a mesma coisa de acompanhar jogo da Lusa naquelas páginas que descrevem o jogo “minuto a minuto”. Modorra.

1, 2, 3, 4, 5 x 0…um gol atrás do outro e um lenga lenga falacioso de fazer a arquibancada dormir, o rito da bola cantada.

Vivemos um féretro inacabável, no qual os passos e os destinos são determinados por personagens medíocres que julgam, a judicialização da política é um açoite de classes.

No início da melancólica tarde um personagem com nome de filme Z, Felix Fischer, leu a sentença doublé de relatório, o que veio depois foi puro eco.

Falta pouco para o êxtase dos beócios, falta pouco para o climax de quem espera a humilhante prisão de Lula. A virtude republicana não veio, a massa não saiu do lugar, o roteirista é sacal.

Ontem li a entrevista do Lula para a Monica Bérgamo e calei. O ímpeto de falar sobre tudo é a válvula de escape das redes sociais. Resolvi pensar mais sobre o assunto.

Opinar e fazer repercussão sobre fatos cria uma estática, um zunido permanente que muitas vezes serve para encobrir duvidas, angustias e incertezas.

Todos têm suas certezas sobre Lula. Quem defende o julga, quem acusa também o julga, e assim, resumimos todos o julgamento dos 13 anos de governo, dos 38 anos de PT, de todo campo popular e progressista e da esquerda pós ditadura, tudo isso na figura de Lula.

Da mais sofisticada e detalhada critica à mais rasa e apaixonada (contra ou a favor), há sempre uma observação ligeira ou profunda daquilo que Lula representa para o imaginário popular. As reações à entrevista de ontem apenas reforçaram essa escrita.

A proximidade de sua provável condenação, precipita um sentimento que nos avizinha há alguns anos: o de ausência de Lula. O que cria uma espécie de fim de uma muitas vezes exultante e outras conflituosa, adolescência da esquerda. Sem o Lula para exaltar ou espinafrar, o que faremos?

O pior papel, aquele que empobrece a critica tanto como o adesismo redentor automático que coloca Lula como deus, é a naturalização da “culpa do Lula”. Para além dos pedalinhos, reformas de sítio e triplex, Lula seria o culpado de tudo que deu errado para projeto da esquerda no país, é um exagero constante, que tende a empobrecer o debate, precipitar julgamentos (novamente ele) e esvaziar as alternativas.

Ainda defendo e para tal muitas vezes calo a minha crítica, que a figura de Lula é um legado do campo popular, esse simbolismo poderoso torna compulsória sua defesa. Não vou me juntar aos frias, mesquitas e marinhos e exercito subordinado para exumar cadáver nenhum, que o matem primeiro e paguem o custo disso. Nunca esquecendo que essa defesa não é uma chancela total.

Há que se afirmar a luta de classes e de que lado estamos e repudiar veementemente o discurso de que o grande mal está na polarização. Existe pelo menos um lado claro, que comporta 1% da população e onde não cabem os demais 99%, não? E hoje, é a figura de Lula que representa essa maioria, mesmo que parte dela o rejeite autofagicamente.

A esquerda vai ter que se acostumar a viver sem Lula, mas antes vai ter que entender melhor o fenômeno vivo.

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