“Carlos Humberto Caszely”


Hoje começa a Copa da Russia.

Em 1970 eu tinha quatro anos, lembro pouco do Brasil campeão no México.

Meu irmão um dia me contou que eu fiquei alegre e que repetia o nome de Tostão pela casa. Foi meu jeito de comemorar.

A minha primeira Copa “consciente” foi a de 1974, a da Alemanha. A abertura foi no Estádio Olímpico de Berlin, 14 de junho, há exatos 44 anos. A equipe anfitriã enfrentava o Chile e foi naquele momento que comecei a ver Copas.

São muito nítidas as lembranças. Eram 11:00 do dia e a minha irmã tava arrumando a casa, eu improvisei um lugar na sala pra ver o jogo. Foi a primeira Copa transmitida a cores, mas eu vi o jogo sozinho na nossa velha Invictus preto e branca.

Claro que na tradição de ser gauche eu torci pro Chile, eram sulamericanos e supostamente mais fracos, foi fácil escolher. O cara bom do Chile era o Caszely, que tinha o bigodão tal qual o o Rivelino. Eu sabia que o Caszely era o bom do Chile, mas não sabia direito quem era o Caszely.

Logo, a Alemanha fez um gol, golaço. Breitner, um chutaço de fora da área. O bom da Alemanha, Gerd Mueller, não fez gol.

A minha estréia em Copa teve novidade, Caszely, o bom do Chile, foi o primeiro cara a ser expulso num jogo de Copa do Mundo. Aos 19 minutos do segundo tempo, ele revidou uma entrada violenta do alemão Vogts e foi pro chuveiro.

Aquele jogou acabou, a vida seguiu em várias outras derrotas e vitórias de Copas. Tempos depois, eu descobriria que os feitos daquele atacante chileno estavam muito além de ter sido apenas o primeiro expulso em uma Copa.

Caszely foi um jogador politizado, simpatizante do Partido Comunista Chileno, identificado com o Presidente Socialista, Salvador Allende, craque artilheiro do Colo Colo e ativo opositor do golpe impetrado pelo ditador Augusto Pinochet.

Em 1973, as vésperas da Copa e nos primórdios do golpe militar, a mãe de Caszely, Olga Garrido foi sequestrada e torturada pelos agentes da ditadura.

Pressão no ídolo do futebol, retaliação no cidadão progressista, o fato é que na despedida dos jogadores chilenos que partiam para a Alemanha, o ditador Pinochet deu o ar da sua desgraça e, contrariando o entusiasmo do capitão do time e apoiador da ditadura, Valdés, o valente Caszely se recusou a cumprimenta-lo.

Depois de ser expulso no primeiro jogo da Copa, Caszely foi detonado pela imprensa apoiadora da ditadura, sofreu boicotes em convocações e seguiu sua carreira jogando na Espanha, onde estava desde 1973. A ditadura tentou de tudo pra destruir sua carreira e vida, ele seguiu.

Em 1988, aquele que foi chamado o “El Rey del Metro Cuadrado” deu mais um golpe no golpe. Ele e sua mãe Olga participaram da campanha pelo “No” no plebiscito que decidiria a permanência ou não do ditador Pinochet no poder.

Foi relevante o depoimento da mãe e do filho para dar um fim aos cinzentos anos do Chile, assim como foram relevantes todos os gols e posicionamentos da carreira desse rebelde do jogo jogado. O não ganhou.

A Copa de 1974 foi a minha primeira. A Copa de 1974 teve como artilheiro o polonês Lato, a a campeã foi a Alemanha, o Brasil de Zagalo feneceu, a Holanda foi o futebol bonito, mas o herói sem gols e atemporal daqueles dias sombrios sempre será o Caszely.

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