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Cinema

Inezita Barroso morreu à véspera do dia da Mulher. Foi uma mulher valente, criadora, multiplicadora, ativa. Filha de elite quatrocentona paulista, conviveu com os caipiras, com o povo, se interessou pela cultura popular, sem o olhar do vampiro colonizador.

Se misturou bebeu a marvada e cantou, cantou muito junto com o povo. Inezita era bibliotecária (honra ser seu colega), mas antes de tudo era uma grande fomentadora, divulgadora e criadora da nossa cultura e do nosso patrimônio cultural.

Gravou oitenta discos, perambulou pelo Brasil (à luz do mestre Mario de Andrade) cantando, pesquisando e se encontrando com os nossos griôs, com os autores desconhecidos e fez uma obra de obras.

Viva Inezita Barroso, viva o Brasil que pulsa, que cria, que inventa e se reinventa. Viva a Mulher Inezita, honra de todos nós, ela representa a antítese do Brasil que odeia o Brasil.

Ignez Magdalena Aranha de Lima (São Paulo, 4 de março de 1925 — São Paulo, 8 de março de 2015 ).

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É inquestionável a complementaridade entre Educação e Cultura na responsabilidade de fomentar ações de leitura e construir os lugares e possibilidades da leitura vicejar. Mas não podemos ficar apenas na constatação dessa consanguinidade, é preciso agir, é necessária a formulação de políticas públicas para que as frases e os slogans produzidas não se transformem em justificativas eternas.

No âmbito nacional, o PNLL (Plano Nacional do Livro e Leitura) se apresenta como parte de uma articulação entre o Ministério da Educação e o Ministério da Cultura que deve contar com o protagonismo constante da sociedade civil. O PNLL se inscreve como um marco legal para construir diretrizes, criar instancias de regulação e acompanhamento e desenvolver canais para estabelecer os parâmetros lógicos , os fundamentos e dar ênfase às políticas públicas do livro e da leitura.

Para tornar o PNLL uma realidade, é necessária a participação dos entes federativos no que podemos chamar de estabelecimento de um “Sistema Nacional do Livro e Leitura”, o que se consubstancia através da confecção e implantação dos chamados planos estaduais e municipais (do livro e leitura) sendo este um passo inequívoco no intuito de possibilitar a criação de estados e municípios leitores, além de obedecer a uma lógica de descentralização de ações e recursos apontada pela Constituição de 1988.

Desde junho de 2014 foi constituído o Grupo de Trabalho para a elaboração do Plano Municipal do Livro, Leitura, Literatura e Biblioteca do Município de São Paulo (PMLLLB). Este GT é composto por membros do Executivo, através de representantes das Secretarias Municipais de Governo, Educação, Direito Humanos, Sociedade Civil (ONGs, entidades de classe, militantes da leitura) e Parlamento (dois representantes advindos dos mandatos legislativos).

Em junho de 2014, o Vereador Antônio Donato promoveu audiência pública na Câmara Municipal de São Paulo para discussão do Projeto de Lei criado por ele em 2010 a fim de promover espaço de desenvolvimento de ações voltadas ao fomento do livro e da leitura na Cidade de São Paulo. Naquele momento, por indicação do Professor José Castilho (Secretário Nacional do PNLL) fui convidado a prestar assessoria em torno dessa questão, ocasião em que sugeri ao Vereador a utilização do PL para a composição do Plano Municipal do Livro e Leitura.

Na audiência pública realizada no dia 09/06/2015 na Câmara Municipal ficou acordado entre o Vereador Donato, as Secretarias de Educação e Cultura e o GT do PMLLLB, que teve origem em grupo de trabalho criado em 2010 pela sociedade civil e estava sendo composto formalmente em concomitância, que o Projeto de Lei citado acima daria espaço e guarida aos resultados dos trabalhos e resoluções do PMLLLB, o que demonstra a existência de uma facilidade de tramitação no Legislativo, posto que o PL já se encontra em situação de segunda votação na Câmara Municipal.

Naquele momento passei a integrar, como representante do Legislativo GT do PMLLLB, sendo outra representante do Legislativo a ex Secretária de Educação e atual Chefe de Gabinete do Vereador Antônio Donato, Cida Perez. No curso de junho de 2014 as reuniões do GT começaram a acontecer e no segundo semestre de 2014 foram realizadas as audiências temáticas baseadas nos eixos estabelecidos pelo Plano Nacional do Livro e Leitura:

1 – Democratização do acesso;

2 – Fomento à leitura e à formação de mediadores;

3 – Valorização do livro e comunicação;

4 – Desenvolvimento da Economia do Livro;

5 – Literatura (este item acrescido na versão de São Paulo).

Foram mais de 30 consultas junto a Cidade, envolvendo os diversos segmentos do livro e da leitura, a partir dos quais pudemos ouvir e registrar demandas, reinvindicações e sugestões que servirão de subsídios para a composição do Plano e que comporão o documento base que será apreciado e debatido nas plenárias regionais.

Nesta perspectiva, a próxima etapa da elaboração do Plano consistirá na realização de consultas à comunidade inseridas nas seis Regiões da Cidade (Norte, Sul, Sudeste, Leste, Centro, Oeste). Este será o momento de dar voz e participação à população no sentido de construir um Plano que reflita o direito ao livro e à leitura, que não se restrinja a interesses corporativos e localizados, já que os esforços devem estar concentrados em garantir a participação popular.

Nos próximos dias o GT estabelecerá as datas e locais onde as audiências regionais ocorrerão, assim como as necessidades estruturais e de logística para organização das consultas.

É importante frisar que a participação de todas as representações reunidas será fundamental para garantir a democracia e a pluralidade na confecção final do Plano. Este será o momento de juntar as forças e será de grande valia a parceria e a potência das Secretarias envolvidas no intuito de se alcançar e dar espaço às diversas demandas e vozes da Cidade.

Os recém-empossados Secretários de Cultura, Nabil Bonduki, e de Educação, Gabriel Chalita serão importantes protagonistas da construção do Plano. Nós teremos a oportunidade de celebrar e dar concretude à propalada complementaridade entre as áreas que tratam exclusivamente dos benefícios dos cidadãos paulistanos, o que poderá inscrever o direito à leitura entre os direitos fundamentais da Cidade.

No final do mês de abril de 2015, o GT finalizará o documento com a proposta base do PMLLLB a ser entregue ao Executivo, para a posterior tramitação no Legislativo. A ideia, e o desejo, é que no mais tardar em junho de 2015 São Paulo tenha votado aprovado e ratificado pelo Prefeito Fernando Haddad o seu Plano para o Livro e Leitura.

Quero falar diretamente da Lei Rouanet.

A Lei Rouanet deve ser extinta. É uma lei que beneficia que tem grana e entradas no poder. É uma lei que foi feita originalmente (por Celso Furtado – Lei Sarney) com o intuito de dar poder à sociedade civil e criar uma ruptura com a política cultural autoritária da ditadura militar. Serviu para abrir um nicho democrático, mas acabou sendo apropriada por outros tentáculos do poder.

A Lei Rouanet além de privilegiar o mercado de cultura do sudeste (em detrimento das outras regiões), beneficia Fundações que foram criadas para serem bancadas pelo Estado e ficar fazendo pose de beneméritas, é o caso da Fundação Roberto Marinho.

A Lei Rouanet só beneficia artistas consagrados e produções de forte impacto midiático, as empresas que usam 100% de dinheiro público em reforma de renuncia, a utilizam como braço cultural do departamento de marketing.

Grande parte dos recursos públicos usados na área de cultura são absorvidos pela Lei Rouanet, ou seja, o Estado paga para as empresas fazerem marketing e posarem de mecenas bonzinhos, assim fica reforçado do discurso do Estado ineficiente e iniciativa privada excelente gestora.

Lei Rouanet é a festa dos liberais de meia pataca. Isso gera um fenômeno interessante: artistas que descem a lenha no Governo e exaltam as empresas e “esquecem” que o dinheiro que banca os seus convescotes estéticos vêm do Estado que demonizam. Lindo.

Toda vez que a Lei Rouanet é criticada a mídia contra ataca de duas formas: desqualificando o artista que dela se beneficiou (o blog de Maria Bethânia é um exemplo) ou trombeteia que o Estado autoritário está querendo intervir numa lei harmonizada pelo mercado. Esquizofrenia calculada. O resultado: a Lei Rouanet segue imexível e demonizada por todos, mas beneficiando meia dúzia, sempre.

A Lei Rouanet foi criada para combater um Estado autoritário e hoje fomenta autoritariamente uma meia dúzia. Para que essa meia dúzia se beneficie de suas regalias apareceu a figura do atravessador, o empresário FIFA da cultura. O atravessador se beneficia dos calabouços burocráticos da Lei para aumentar a influência de quem já tem influência, a meia dúzia que se beneficia pela Lei Rouanet fica cada vez mais meia duzia.

Há uma solução para a Lei Rouanet. Trata-se do SNC (Sistema Nacional de Cultura). Um sistema que implica os três níveis da Federação: União, Estados e Município. Existem fatores que viabilizam esse Sistema:

– Todo Estado e Município deve ter sua Secretaria de Cultura;
– a política que norteia as Secretarias deve ser debatida e formatada nas Conferencias de Cultura (periódicas e deliberativas)
– As secretarias devem formatar junto com a sociedade civil os Conselhos 
de Cultura paritários e deliberativos;
– os recursos do SNC devem ser repassados para o Fundo de Cultura dos Estados e Municípios e esses geridos pelo Conselho;
– a participação popular deve ser garantida em todos os itens acima.

Essa é a alternativa concreta à Lei Rouanet. Pelo menos o início dela.

Em suma: o controle sobre a política e os recursos da política deve ser efetivamente democratizado, sem eufemismos.

 

Finalmente, a Lei Rouanet deve ser extinta e esquecida o mais rápido possível, precisamos dar o salto, precisamos dar voz a quem não tem voz, recursos a quem vive de promessa de diálogo e na penúria, é preciso democratizar a cultura de fato.

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Em 1978 a preocupação da esquerda britânica era a expansão do National Front (partido da extrema direita) que recebera expressiva votação na eleição daquele ano. O NF arrebanhava seguidores entre os jovens desempregados e sem perspectivas que eram atingidos por mais uma crise do capitalismo em meados da década de 70

O prestigio do NF não era um fenômeno isolado, claro, logo as idéias ultraliberais do velho Fred Hayek triunfariam na figura implacável de Margareth Tatcher, semente do neoliberalismo. Mas o NF era o braço radical dessa direita que se manteria hegemônica nos anos 80 e pregava a violência e a deportação dos imigrantes vindo das ex colonias inglesas (jamaicanos, indianos, pakis).

Jovens pobres brancos segregando jovens imigrantes e descendentes.

Eric Clapton e David Bowie, em momentos diferentes, corroboram com a onda direitista, o primeiro dando uma declaração desastrosa contra negros e imigrantes no meio de um concerto em 1976 e o segundo usando a saudação nazista no meio de uma das suas aparições marketeiras numa estação de metrô.

Em 30 de abril de 1978 oitenta mil pessoas vindas de todo canto do Reino Unido marcharam de Trafalgar Square para o VictoriaPark, local onde bandas de rock antifascistas fizeram um concerto. Era um grito de resistência, um contraponto ao avanço da direita. O aparente niilismo e anarquismo inconsequente do punk se lançava na luta concreta contra um inimigo palpável: o fascismo.

O concerto “Rock Against Fascism” reuniu The Clash, Buzzcocks, Steel Pulse, X-Ray Spex, The Ruts, Sham 69, Generation X, Tom Robinson Band , Patrik Fitzgerald. Música rebelde, musica de rua era o lema. O engajamento tinha tinturas estéticas, pois quase a totalidade dessas bandas buscou referências na música negra, nos ritmos terceiro mundistas, o que emprestou cores diversas ao punk e aos estilos derivados.

O RAR desencadeou uma série de outros concertos e estimulou o engajamento de várias bandas contra a onda fascista.

Nada mais adequado pensar no RAR nesse momento de Bolsonaros, Lobões, Pondés e outras hienas. Uma boa lembrança para o contexto.

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A gente tão perto da cidade
e tão longe dela.

João Antônio

Não dirijo, nunca tive carro na vida. Não, não faço parte de nenhum movimento libertário de protesto contra a opressão do trânsito. De início um bloqueio que foi se transformando em convicção, decisões e vacilos me afastaram das quatro rodas.

Andar nas ruas, nos coletivos (onibus, trens, metrôs) tem suas vantagens. Você ouve de um outro jeito as coisas. Você consegue, perceber, olhar alguns detalhes que a lógica dos vidros fechados não permite. As palavras chegam sem tantos filtros.

As ruas muitas vezes falam de maneira íntima, amíude. Elas amplificam os detalhes de uma maneira que só palmilhando calmamente entendemos seus recados. As travessas, esquinas, praças, vielas, pontos de ônibus reclamam sempre um dedinho de prosa que seja.

É tempo de eleição, antes de nos tornarmos panfletos da repetiçao, que percamos um tempo, mesmo que seja curto, para registrar, entender e dialogar com o que diz as ruas.

O coletivo que vive em assembléia permanente.

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A nova técnica de desqualificação da política e de se acomodar bem no tradicional muro é afirmar: “o debate eleitoral está histérico, a baixaria tomou conta de tudo.”

Pois então, fica muito fácil dizer isso sem especificar a baixaria, sem confrontá-la com a realidade.

Coloca-se todos genericamente na mesma panela e se assume o papel de “não faço parte dessa corja”. O muro blasé da distinção.

Ataques baixos na política têm origem e qualificação, para fazer politica e participar de debates você tem que assumir posições, geralmente elas são questionadas e ferem interesses alheios, podem ser rebatidas, reiteradas, desmentidas.

O mundo do relativismo e da isenção protege, mas o mundo real é o mundo das opções.

Dia 01 de janeiro alguém assumirá o posto de Presidente(a) da República não há como passar por cima disso.

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A era lulodilma gerou uma fonte produtora do “ódio de classes”. Literatura ruim, jornalismo ogro, biografos mentirosos, xingamentos direitistas das redes sociais. 

 Toda a barulheira gerada é tão somente para dar ênfase ao inconformismo e aos interesses contraditos de uma parte da sociedade que não tolera um governo que ousou, ainda que minimamente, inverter prioridades históricas. 

A necessidade de que mais pessoas aderissem a este ódio só poderia gerar a propaganda ideológica de que o governo prejudica o Brasil e seus indivíduos, os aspectos positivos são ignorados.

O resultado é reprodução de um discurso que, em geral, não cabe muito na realidade das pessoas, uma indignação superficial, uma razão que não resiste a um ou dois questionamentos.

Seria hipocrisia dizer que Lula, Dilma e seus governos não falharam e que toda a crítica que se faz a eles é falaciosa e panfletária. O fato é que em meio a tanta mentira e ódio gratuíto, as críticas objetivas e consequentes se perdem. O debate Brasil morre em bravatas, lamentações e narrativas empobrecidas.

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