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Musica, Cinema, Cultura, Literatura

Fizeram do Rio de Janeiro o novo laboratório da desconstrução do Estado.

Sucata e exemplo, a beleza da paisagem é pra deixar o exemplo mais perverso.

O Rio decaído está muito relacionado com a perda da nossa autoestima. Não adianta reduzir a cidade a um passado ou colocar a culpa nesse ou naquele governo, o Rio é agora, e nesse momento que ele está sendo aviltado.

Nos meus 51 anos confesso que não passei as horas necessárias na cidade para entendê-la, mas creio que o Rio não é apenas entendimento, é aquele deslumbramento que sentimos quando vemos o conjunto do seu legado material e imaterial que dá o tom do que sentimos. Depois do deslumbramento vem o comum que são as pessoas, os lugares e a história. É triste perder isso.

No mais, o Rio é a cidade da herança escravagista (como São Paulo, Salvador, Recife…), pronta pra ser o laboratório que usa o mérito do seu passado pra justificar a perversão do presente.

O retrato desse momento é: um governador cúmplice e desmoralizado, a guerra nas ruas há muito deflagrada, uma aliança híbrida entre o crime e o criminalizador, a miséria da crise temperando tudo. A intervenção militar é o golpe fatal pautado no discurso do medo e da insegurança.

Milton Friedman mergulharia satisfeito nessa cidade submersa.

“Ergo em silêncio, como um pirata perdido,

minha negra bandeira e me sento.”

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Reencontros: a Rua Ártico foi uma das ruas da minha infância, do lado da casa da mãe, Vila São João, SBC. Ali fica o “Bar da Dona Nair” que teve seu primeiro alvará em 1968, e que ainda segue na resistência.

O cara do sorriso jovial é o Betinho, filho da Nair, amigo de infância, hoje cinquentão que comanda o velho boteco.

Passei a pouco lá pra tomar uma gelada, fugir da garoa e matar saudade.

Eu ouço samba desde menino. Meu irmão dedicou sua curta vida ao samba. Tocava instrumentos (tamborim, repinique e , segundo ele mesmo, enganava no pandeiro). Acompanhei tudo.

Ele curtia o carnaval de sexta a quarta, saia em escolas, vivia e convivia durante o ano todo nos preparos e no aquecimento, os ecos dos carnavais lá em casa eram levados por meu irmão.

Eram a Vai Vai e Acadêmicos do Ipiranga as suas escolas queridas em SP. Em casa tinha discos das escolas de samba do Rio de Janeiro desde o mês de novembro e os enredos colavam na gente. O mano no RJ era Mangueira doente, visitou algumas vezes o barracão lá no morro. A música rolava na Grunding da sala.

Eu impliquei de torcer pra Império Serrano, gostava do nome, do famoso samba de 1969, Heróis da Liberdade, de Silas de Oliveira e Mano Décio da Viola. Passei a gostar ainda mais depois de 1975, naquele ano fiquei apaixonado por “Estrela de Madureira”, o samba que uma dupla de compositores do Império (Acyr Pimentel e Cardoso) fez em homenagem a uma icônica atriz do teatro de revista chamada Zaquiá Jorge e que fora derrotado na competição de enredo do carnaval por um outro samba do compositor Avarese. Zaquiá, nascida Celeste Aída, foi uma mulher ousada e forte, estrela das vedetes, que nasceu e viveu no subúrbio de Madureira e morreu em circunstâncias obscuras na segunda metade dos anos cinquenta.

Na época, eu não sabia de Zaquiá, nem da homenagem, pensava que a dupla compusera o samba em homenagem à própria Império, meu irmão que me mostrou o samba também nada sabia, descobri anos depois essa história, assim como descobri Aniceto, Ivone Lara e a bonita origem da Império, fundada em 1947, como dissidência da Prazeres da Serrinha, e fundada por estivadores sindicalizados do Caís do Porto.

Não importa tanto o lapso histórico, o samba é lindo e marcou minha infância, principalmente pela voz de Roberto Ribeiro, e pela memória afetiva que preservo e sempre que posso recupero.

Hoje, é dia de tristeza e alegria. O vice campeonato com gosto de campeã da pequena valente Paraíso de Tuiuti orgulharia o meu irmão, um cara que do jeito dele sempre esteve do lado do que é popular e não hegemônico. A tristeza fica por conta da Império Serrano, a eterna vedete de Madureira, que caiu para o segundo grupo. O Carnaval das contradições aqueceu meu coração de novo.

É esse o jeito que nós conseguimos driblar as derrotas e exaltar as belezas da vida, um jeito que parece banal e fugaz, mas tinge de cores vivas os dias que poderiam ser tristes e cinzas. Nossas memórias. Dedico esse post ao meu irmão, um cara do samba que sempre estará aqui comigo.

Vivo há anos no centro de São Bernardo do Campo. Trabalho perto de casa, circulo pelas ruas e reconheço os comerciantes, os ambulantes. Nem sempre sei os nomes das pessoas, mas engato conversas, troco informações e faço as piadas do dia a dia. A região central das cidades têm seus momentos de bairro, de espirito comunitário e de leveza.

Há alguns anos conheci dois rapazes vendedores ambulantes, primos, pernambucanos. Um deles descobri que torcia pela Lusa. A primeira vez que o vi com a camisa do meu time, fui logo intimando:

– Camisa bonita, parceiro!

– E não é companheiro? – o sotaque forte e o sorriso abriam a intimidade.

Todo dia era bom dia e uma piada sobre futebol. Pouco tempo depois descobri que a Lusa era o segundo time do parceiro. O primeiro, do coração mesmo era o Salgueiro, time da terra natal do rapaz que vendia bolsas, cds, dvds e outros badaluques. Revezava as camisas, um dia da Lusa, outro dia do Salgueiro. Assim matava saudades do sertão de Pernambuco, como ele mesmo dizia a terra pra onde um dia voltaria.

O primo mais novo não era chegado em futebol, mas se engajava nas piadas e sempre preenchia os cumprimentos com a frase de quem realmente nunca para:

– É correria parceiro…

Passou o tempo e eu fui trabalhar longe e pouco circulava pelo centro. Não via tanto os camaradas. Um dia parei na barraca e notei pela falta do meu parceiro luso salgueirense, perguntei pro primo:

– E o meu camarada?

– Rapaz, ele não segurou o rojão. Começou a beber demais, ficou triste, furava no trampo e foi embora. Assim do dia pra noite…voltou pra Salgueiro.

Lamentei, falei pra mandar um abraço quando falasse com ele e nunca mais tive noticias.

Isso faz uns cinco anos. Nesse intervalo, pouco vi o primo que ficou, o “correria”. Passei algumas vezes e o cumprimentei rapido, mas nunca mais conversei.

A cerca de sete meses voltei a morar no centro de São Bernardo, fico aqui metade da semana, vivo na ponte área SBC/Barra Funda.

Semana passada cheguei na biblioteca que trabalho e tava lá o primo mais novo sentado na calçada. As roupas puídas, meio sujo, olhos vermelhos, olhar distante, aquele jeito do abandono. Fingiu que não me viu, desviou o olhar e saiu de lado.

Fiquei pensando na historia do cara, supondo versões. Uma vida que caiu? Dando um tempo? É uma fase? Também não segurou o rojão?

Hoje de novo o vi, do mesmo jeito, roupas mais sujas, olhos mais vermelhos, mas dessa vez não desviou o olhar, me encarou, sorriu sem jeito, trocamos umas palavras. Não quis me aprofundar, porque ele pedia que não houvesse aprofundamento. Pensei em perguntar do primo, desisti. Fui rápido e permiti que ele encerasse com a brevidade necessária, mais esse desencontro da vida:

– É correria, parceiro…

Muitas vezes as ruas que andamos ficam vazias, muito vazias e o silencio não é a pior opção.

Na primeira metade da década de 80, conheci os escritores beats através da editora Brasiliense. Aliás, a Brasiliense era a editora da molecada curiosa naquele fim de ditadura.

Em 1984, o livro “On the Road de Jack Kerouac, foi traduzido pelo jornalista Eduardo Bueno (Peninha) como Pé na Estrada, sob a grife da Brasilense que foi fundada anos antes por Caio Prado e à época era comandada pelo seu filho Caio Graco.

Vieram outros livros de outros beats: Allen Ginsberg, William Burroughs, Gregory Corso (um dos meus preferidos), Lawrence Ferlinghetti, Gary Snyder. A descoberta da prosódia bop e da poesia de amplas possibilidades fascinaram aquele Brasil que tentava inventar uma nova democracia, eu adolescente e muita gente que também tava crescendo e se abrindo.

Era bom rodar nas livrarias Brasiliense do centro de SP e descobrir livros de capa colorida, as coleções como Cantada Literária, Encanto Radical, Primeiros Passos, Círculo se Letras. Tempo de descobertas, a vida que abria portas.

Hoje à tarde, veio uma garota na biblioteca que trabalho à procura de escritores beats. Disse ter lido tudo que achou do Kerouac em português, e queria Ferlinghetti, Borroughs, Corso. Atendi, forneci o que tínhamos, falei de outros malditos, não necessariamente beats, Genet, Lautreamont, London, Twain, etc, compartilhei daquele brilho inequívoco do momento de descobertas.

A troca sagrada e benevolente de informação, de histórias e descobertas.

Reli o entusiasmo e o sorriso de felicidade da moça, revi meus passos naquelas ruas do centro que tanto amei, revivi o entusiasmo de ler e descobrir verso e prosa, há quase trinta e cinco anos atrás. A vida, seus presentes e suas satisfações redivivas.

É interessante observar o movimento que fez o verdugo Reinaldo Azevedo.

Ele foi o detrator de primeira hora de Lula e PT.

Se valeu de toda sorte de exageros retóricos, linchamentos, distorções e subversões lógicas. Um manual de desonestidade intelectual.

Ajudou a galvanizar a grita geral à demonização e à judicialização da política e das instituições.

Atingido o objetivo, ironicamente voltou a sua artilharia contra a judicialização e os julgamentos seletivos que fomentou. Ataca um expediente que conhece como ninguém. Instinto de sobrevivência.

Assim, nega o próprio legado, na ânsia de construir um novo e posa de verdadeiro liberal, de implacável defensor das liberdades e do estado de direito.

E há quem acredite e aplauda…

Sousândrade foi um poeta romântico maranhense que viveu entre 1830 e 1902. Rompeu com a pompa romântica para compor o prenúncio do modernismo com versos elípticos, sínteses e ousadias sintáticas. Morreu miserável e com a pecha de louco.

O Canto X do grande poema “O Guesa”, lançado em 1872, mal compreendido na época, trazia o excerto chamado “Inferno em Wall Street”, um crítica ácida à força do capitalismo e dos EUA como epicentro.

Lembrei de Sousândrade hoje. A Bolsa de NY teve a sua maior queda da história. O inferno vem daí, a queda que prenuncia mais porrada no lado fraco da relação capital/trabalho. O “second coming” de 2008. O inferno vem de Wall Street sempre. O pior do capitalismo vem sempre quando ele parece alvejado e morto.

Sousândrade vive.

“(Em SING-SING)

— Risadas de raposas bêbadas;

Cantos de loucos na prisão;

Desoras da noite

O açoite;

Dia alto, safado o carão…”

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