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Musica, Cinema, Cultura, Literatura

Não tenho filhos. Tenho um enteado. Não ter filhos nunca me afastou de crianças. Pela profissão (bibliotecário), por empatia.

Toda criança tem um brilho particular nos olhos. Não é algo genérico, é singular, principalmente quando descobre algo, quando inaugura.

Em meados da década de 1990 namorei uma moça que tinha dois filhos. Um deles tinha 6 anos. Pude presenciar um desses brilhos inaugurais.

Levei o garoto pra ver um jogo de futebol pela primeira vez. Foi no Canindé, num jogo da Lusa. Quando entramos no estádio, subimos e ele pode ver o gramado todo. Então, a frase:

– Noossa, é verdinho…que bonito.

E veio o brilho nos olhos, daqueles inaugurais. Foi intenso e emocionante compartilhar aquela sensação de descoberta. Claro que o menino não virou torcedor da Lusa, foi ser palmeirense, time do pai. Mas, o primeiro brilho pude vivenciar.

Tenho sorte, pois esse brilho não é apenas suscitado nos campos de futebol. Acontece muito, bastante mesmo em bibliotecas. As meninas e meninos veem os livros e os olhos também brilham.

Não é magia, é vislumbre de novas cores, de cores diversas. É o brilho das possibilidades, das descobertas, dos novos enredos.

Eles estão por aqui. Entram pequenos, às vezes voltam, continuam, somem, aparecem depois de anos. Muitos brilhos se apagam, outros modificam, outros tantos perduram. São diversos os caminhos. Não é pouco ver e viver isso.

A foto é das meninas, meninos, professora e professor do EMEB Bruno Massone, agradeço.

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Ontem à noite no táxi, 23:00 horas, percurso Leblon/Cosme Velho/ Flamengo:

– Vai virar a noite ou para logo?

– Tive problemas de saúde na família, dormi mal a noite passada, devo parar logo. Além do mais, a cidade está vazia.

– Realmente, tá sossegado aqui…

Em poucos segundos refleti sobre o que eu disse. Rio de Janeiro, feriado da santa padroeira, média de 34 graus e a cidade vazia.

Como bem disseram os amigos que moram por aqui o Rio está triste, baixo astral. O estereótipo é de cidade violenta e perigosa, mas o que fica patente é a tristeza e a falta de horizonte.

Falta de horizonte com o Pão de Açúcar e a Pedra da Gávea beijando os olhos? A exuberância da natureza deixa a coisa mais difícil de entender.

O Rio é a bucha de canhão, balão de ensaio das destopias. O exemplo que querem construir para fixar a ideia de que o remédio para a ausência de Estado é menos Estado ainda. A narrativa monolítica de globos e plutocratas afins prevalece.

Vou dormir com o sentimento nada inédito de que “os caras venceram” ao esvaziar o Rio de Janeiro no feriado da santa. A cidade responde em volúpia e amanhece assim chuvosa. É o jeito silencioso de dizer não.

O Brasil é um país sensacional.

Metrô lotado, quinze pra uma, entram dois rapazes com visual mix bicho grilo/regueiro. Dreads, roupa folgada, chinelão de couro e tal.

O jovem, loiro falante, pandeiro na mão, anuncia:

– Boa tarde, senhoras e senhores, Radio Vagão do Metrô, a única sem antena e Produções Indigência apresentam…

O mais velho, brasileiro índio/negro/caboclo, sax tenor tocado com esmero no meio da quentura do horário de almoço, meio do dia, começou uma curta apresentação para os rostos cansados e apressados. Papa fina.

De prima com “Iracema” do Adoniran, música triste do cancioneiro paulistano. Passei os olhos no vagão ainda indiferente, um ou outro batendo o pé, tímidos, o rapaz loiro seguiu performando o pandeiro o quanto pôde.

Um silêncio seguido da narração da Rádio Vaguão e blá-blá-blá…

Daí, veio o Canto de Ossanha…

O pandeiro e o sax cresceram no clássico de Baden e Vinícius. O volume aumentou, o vagão da Rádio Vagão acordou. Sentimento barroco. Os músicos fizeram duas partes. As pernas mexendo aumentaram e mais sorrisos brotaram desavergonhados.

A sanha de Ossanha.

O país cresce nessas horas. O rapaz passou o pandeiro, o povo contribuiu com o que pôde e a tarde ficou mais leve. Na canja, antes da porta do metrô abrir, a despedida foi com a melodia de “Juízo Final” de Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito.

É o Brasil que importa.

O nu do MAM se transformou na pauta do país.

É um tática diversionista clara da direita.

Vejam, não estou dizendo que os temas arte/censura, arte/sexualidade não sejam importantes e não possam abrir caixas de pandora.

O problema está na intencionalidade de desvio, na irracionalidade calculada e estimulada desse tipo de “debate”.

Eu comparo o debate ao ato de jogar novelos de lã para um bando de gatos malucos de LSD. A correria e o descalabro seria o mesmo. Basta ver os comentários nas redes, o “homem pelado do mam” já virou top, só perde para Lula como panaceia universal que justifique todos os males, com toda a virulência e a bílis estocadas.

Atiçar este tipo de assunto é formar quase que automaticamente um exército ensandecido pronto para ver imoralidade, exploração sexual e pedofilia em qualquer pedaço de corpo humano exposto. E com o adendo do discurso anticomunista (sic), antiesquerdismo, etc.

O moralismo é um mote perfeito para um país sem projeto, sem rumo, e quase nunca é moral o pano de fundo, o assunto principal. É uma cortina de fumaça para as crises do capital. E os falsos grupos do liberalismo (MBL et caterva) surfam na insensatez.

É preciso muita atenção para que além dos direitos solapados, não tenhamos nossa atenção, nossas prioridades, nossas vidas, sequestradas.

Dória é o coveiro do PSDB.

Muitos podem se regozijar com isso, erroneamente.

Dória é a negação da política, a negação da democracia burguesa e dos mínimos valores humanitários embutidos nela.

Ele representa a barbárie do mercado e isso não quer dizer que ele despreze o Estado, desde que seja para si e os seus, o Estado serve.

É o ultraliberalismo da conveniência. Não é à toa que ele está aliado ao MBL e a toda sua pauta obscurantista e oportunista.

Então se afirma: “ora, mas todo o PSDB é assim, ultraliberal”. Puro engano. Existe sempre o pior dentro do pior.

A ala de Serra, até a de Alckimim, admite e defende o jogo da política, com suas mazelas, perdas e ganhos. Isso não quer dizer que eles sejam virtuosos, honestos e não golpistas. Eles fazem o jogo sórdido dentro da pauta política e usam a lorota neoliberal para tal. Dória é um passo a mais para o abismo do fim da política, é o aprofundamento da lorota. O que diferencia os dois grupos não é do âmbito moral ou ético, mas do âmbito da política.

É nesse sentido que o fato de ser coveiro do PSDB faz de Dória o pior dos tucanos.

Costumava brincar com um trecho do poema “Paisagem n1 de Mario Andrade:

“Minha Londres das neblinas finas!

Pleno verão. Os dez mil milhões de rosas paulistanas.

Há neve de perfumes no ar.

Faz frio, muito frio…

E a ironia das pernas das costureirinhas

parecidas com bailarinas…

O vento é como uma navalha

nas mãos dum espanhol. Arlequinal!…

Há duas horas queimou Sol.

Daqui a duas horas queima Sol.”

São Bernardo, onde nasci, sempre foi a “minha Londres das neblinas finas”. Imaginária, contraditória, a fantasia um tanto provinciana, sempre me veio simpática e carinhosa. Amor e ódio pela terra são sentimentos comuns do citadino.

Ontem, à tarde, no pós tempestade a fantasia ficou mais real. Além da neblina, veio a neve…

Saí de manhã pra comprar cebola. Molho de tomate sem cebola não vira.

No mercadinho simpático (coisa rara no centro) entro rapidinho e vou direto na prateleira da chorosa.

Mas, a vida não é linear. Encontro um velho conhecido da época do colégio. Calvo e barrigudo, me reconheceu, talvez pela calvície e barriga cúmplices.

– Ricardo?

– Sim, sou eu, acho – sorri disfarçando o incomodo de não lembrar o nome do camarada.

– Como você tá?

– Bem e você, ainda tem a oficina mecânica?

– Claro…

Blá-blá-blá blabla blabla e o receio. Depois de uns quarenta segundos de amabilidades chegou o receio. Será que o cara é agora um bolsonarista, um evangélico hardcore, um hater…os receios da contemporaneidade.

Desviei o assunto pro futebol, falamos da decadência da Lusa, da hegemonia corintiana. Consensos. Tava pagando a cebola e saindo feliz pelo encontro relâmpago e memorialista, quando veio a pergunta fatal:

– E o Lula, hein? – o sorriso era de “vamos matar o boi”.

Pensei rápido e saquei:

– Continuamos amigos, esteve na minha casa domingo passado.

O sorriso cessou no rosto e um “até breve” fake e protocolar encerrou o encontro. Restaram as cebolas, sem choro.

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