Por volta das 16:00, 16:30, saio pra tomar um café nos arredores da Biblioteca. É sempre bom andar na cidade, olhar a rua.

Hoje, um sol pálido com brisa leve, lá vou eu. Ainda na esquina, um rapaz me aborda:

– Boa tarde, senhor – já sou chamado de senhor por rapazes de 40, o tempo.

– Pois, não.

– Estou longe da Estrada dos Alvarengas?

– Longe é relativo, vai a pé, qual a altura?

– Sim, vou a pé, o número é 2900 – o rosto redondo de nordestino, negro, sorriu inteiro.

– É uma boa caminhada, meu camarada, uns 5 kms, tá animado?

– Tem que estar, não tenho outro jeito, é um serviço, tô desempregado faz tempo, tô caminhando desde cedinho. Vim a pé do Jardim do Estádio (bairro de Santo André, cidade vizinha) – veio de longe.

– Qual a vaga?

– Serviços gerais, vamos ver se dá certo.

– Vai dar certo.

Expliquei do jeito que sei. Fiquei observando por uns segundos o rapaz sumir na tarde, na busca, na batalha. Seguiu seu caminho.

É longo, muito longo, o caminho de quem precisa do trabalho.

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Suicídio é um tema delicado. Nessa época de atrocidades temos que tomar o dobro de cuidado com o assunto para não ferir pessoas e cometer julgamentos precipitados.

O suicídio do reitor da Universidade de Santa Catarina, Luiz Carlos Cancelier, não é diferente, porém ele alcança uma dimensão pública, extrapola as dores e o luto familiar.

Cancelier foi preso recentemente sob acusações de desvio de dinheiro público. Preso da forma que o estilo inquisidor que passou a grassar no país permite. Um espetáculo dantesco que faz parte de um combo que inclui acusação sem julgamento e linchamento público.

Se Cancelier é culpado ou inocente ainda não sabemos. As informações esparsas dizem que os desvios ocorreram antes de sua gestão. A polícia diz que o reitor estava obstruindo as investigações, mas ainda não provou. Não fosse o sensacionalismo talvez a investigação corresse serenamente e chegasse rápido à verdade, mas…

O suicídio foi uma resposta triste e pública à espalhafatosa prisão. Ele o fez num shopping center de grande circulação nessa cinzenta manhã de segunda feira. Um grito de alerta.

Na prática pouco importa se Cancelier era culpado ou inocente. O punitivismo, a performance policial, o linchamento público fizeram as vezes de carrasco. A presunção de culpa virou aparato e instrumento que estimula a condenação.

Poucos minutos depois da notícia (do suicídio) ser publicada num site de um jornal catarinense, estavam lá dezenas de comentários de leitores chamando o reitor recém falecido de covarde, criminoso e corrupto. O plantão da barbárie não descansa.

Se não lutarmos pela retomada urgente dos princípios básicos do estado de direito, não haverá função pública protegida de ataques, pré julgamentos e perseguições. As arbitrariedades deixarão de bater somente na janela do vizinho e chutarão todas as portas vulneráveis.

Senti isso hoje à tarde e me pus a fotografar. Obrigado, Joao Antonio, mestre sempre.

Atravessei a ponte. Tinha trocados no bolso, me enfiaria num trem, acabaria na estação Júlio Prestes. Daniel com a televisão e Lídia com costuras… Eu queria andar.

Desde que papai morreu, esta mania. Andar. Quando venho do serviço, num domingo, férias, a vontade aparece. O velho, quando vivo, fazia passeios a Santos, uma porção de coisas. Bom. A gente se divertia, a semana começava menos pesada, menos comprida, não sei. Às vezes, penso que poderia recomeçar os passeios.

— Que horas tem trem pra São Paulo?

Meia hora não esperaria. Fui caminhando para a Lapa. Mesmo a pé. Os lados da City, tão diferentes, me davam uma tristeza leve. Essa que sinto quando como pouco, não bebo, ouço música. Ou fico analisando as letras dos antigos sambas tristes — dores de cotovelo, promessa, saudade… Essas coisas.”

Trecho de “A busca”: ANTÔNIO, JOÃO. “Contos Reunidos.”

Muitos amigos estão curtindo a página do Itaú Cultural. Curioso, fui ver o porquê.

A página está sendo inundada por comentários reacionários sobre as exposições artísticas que implicam o corpo humano, a sexualidade, o gênero e outros temas tabus que os milênios de arte abordaram e que o moralismo sempre repudiou. A onda conservadora invadiu exposições, museus, galerias e centros culturais com os argumentos da moralidade. As páginas virtuais das instituições culturais são uma das arenas dessa peleja.

Pude constatar que os likes massivos dos amigos e conhecidos (uma forma legítima de se posicionar) servem como um dos contrapontos à escalada e o avanço da direita em temas que até a pouco eram quase que exclusivos de especialistas e entusiastas e “gente do meio”. Um ambiente muito refratário à opinões com base no senso comum e excessivamente professoral nos raros momentos em que se abre

ao debate com os extratos populares.

A ampliação dos debates estéticos e artísticos, infelizmente, se dá de forma violenta e excludente, através do ativismo político dos setores conservadores. Na carona do estado de exceção, a direita está fazendo política em todos os setores, na cultura, na educação, na saúde, a disputa hegemônica saiu dos bastidores e está explicitada.

Ambientes despolitizados e superprotegidos como o universo das artes, encontram dificuldade em se contrapor a ataques políticos a despeito da qualidade dos mesmos. A resistência a esses ataques carece de consistência não por falta de argumentos ou conteúdo, mas por falta de prática de debate, por ausência de alteridade.

Claro que grande parte dos ataques é patrocinado por mbls da vida (que por sua vez são patrocinados por partidos e instituições obscuras), que colocam na rinha, um exército de entusiastas arrebanhados nas franjas do debate conservador e os conhecidos e caros robôs virtuais. São os recursos que a direita dispõe e bem utiliza nas redes sociais. Patrocinado por robôs ou seres humanos, essa onda da direita não será combatida com arrogância e discurso endógeno, há que se romper a bolha de consensos.

Sem falso otimismo, creio que o momento é oportuno para que os especialistas e detentores do conhecimento do campo artístico e cultural, reflitam e rapidamente se coloquem à disposição de um debate amplo que tenha como objetivo claro dialogar sobre estética, política e cultura com os setores não especializados. A ignorância é uma via de duas mãos que implica o sábio e o incauto, ambos sofrem a consequência da falta de diálogo.

A propósito, não tenho nada contra os likes dos amigos, o que me preocupa é aferir claramente qual a relação dessas instituições culturais ligadas ao setor financeiro com o avanço do conservadorismo. Afinal cultura, arte, política e economia são indissociáveis.

O camarada Irajá Menezes costuma dizer, com razão, que nós fomos golpeados no atacado e reclamamos no varejo. Concordo. Mas, os varejos nos atacam no dia a dia, incomodam, sugam, eles traduzem a grande derrota.

Hoje, após o almoço, andei pelo centro de São Bernardo e ratifiquei uma mudança que venho notando há tempos: os homens placa rejuvenesceram.

Sim, acabou a hegemonia dos idosos como homens placa, jovens ocuparam esse bico, tantas vezes estigmatizado como função de aposentado e fim de carreira.

As placas de “compra-se ouro”, “restaurante self service R$9,90”, “advogado trabalhista”,etc. têm jovens como suporte. A crise e o desemprego fizeram rejuvenescer a precariedade. No olho nu é uma tendência.

Parece irônico e folclórico, mas é de lamentar. Não há nada de vexatório ou desonesto em ser homem placa, mas jovens trabalhadores precisam de melhores oportunidades.

Assistindo com muito prazer a série produzida pelo Canal Brasil “Boca do Lixo – a Bollywood Brasileira”. Retrato dos 20 anos do cinema da Boca do Lixo Paulistana (entre as décadas de 1960 e 1980).

Depoimentos de produtores, diretores, atrizes, atores, montadores, fotógrafos que circulavam na Rua Vitória, dos Gusmões, Triunfo, Aurora e trabalharam muito para fazer um cinema genuinamente popular.

O amigo Matheus Trunk é especialista e falaria com muito propriedade do assunto (inclusive é um dos entrevistados da série). Fico nas parcas lembranças

O que posso dizer é da memória que tenho das minhas andanças ali pelas ruas da Boca na adolescência, primeira metade da década de 1980. Ia pra ver os heróis da Boca já em decadência, cheguei a ver Ozualdo Candeias confabulando num bar. Vi alguns filmes da última fase na tela grande driblando a restrição de idade.

A Boca era um lugar real de trabalhadores do cinema, onde foram produzidos filmes que o povo bancou nas bilheterias, com equipe de profissionais e toda uma rede produtiva. Foram vários gêneros que foram enquadrados no reducionista rótulo de pornochanchada. O povo assistia e gostava.

O Brasil já conheceu o Brasil.

Viva a boca!

Em 2010 eu cumpri a função de dirigir a Divisão de Biblioteca da Prefeitura de SBC.

Desafio complicado, em mais de 50 anos de existência da Divisão, eu era o primeiro homem que assumia aquela direção. O que piorava mais ainda era de ser de esquerda e petista.

Na sede da Divisão, em cima de um balcão, havia uma Bíblia, a Sagrada, aberta no livro de Salmos. Não faço ideia desde quando, mas tava lá exalando sua divindade. Um monumento do estado não laico.

Claro, que uma voz abafada lançou, sem assumir a ideia/desafio: o tal esquerdista ateu vai ter coragem de tirar a Bíblia de lá?

A proposta/zombaria chegou aos meus ouvidos por algum pombo correio. Percebi o

cinismo e devolvi: vamos fazer uma votação. Desistiram. A casinha de caboclo armada caiu. Não sei se a Bíblia continua lá.

Lembro disso pra chegar a uma conclusão óbvia: esse estado nunca foi laico. O obscurantismo e a moral cristã sempre pairaram na maioria das decisões. A Bíblia não fecha nunca.

O STF apenas ratificou a farsa.

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