Sempre que vou a eventos consumistas, como “Feira da USP” e “Salão do Livro Politico”, me lembro do processo de construção do PMLLLB (Plano Municipal do Livro, Leitura, Literatura e Biblioteca). Mesmo as editoras de esquerda, que se propõem a sustentar uma linha editorial de crítica ao capital, enxergam as políticas públicas de maneira míope e limitada.

Com as poucas e honrosas exceções, como a Alameda do Haroldo Ceravolo, a maioria dessas editoras só querem saber do Estado que compra e esquecem que, um Estado que compra e respeita a diversidade, a pluralidade e a bibliodiversidade, é um Estado que tem ser disputado politicamente, e que, um dos meios de fazê-lo é construir políticas públicas democratizantes. Pude conferir isso na participação das mesmas na construção do Plano. Gente batalhadora, com projetos editoriais interessantes e importantes, mas que não prioriza a luta política.

A maioria abre mão disso e se “integra” na disputa desigual com os grandes conglomerados e distribuidoras, ou seja, investe na mão invisível do mercado, negaceando um campo de disputa legítimo e aberto. O liberalismo como ideologia é muito poderoso. Eu não to falando em adotar uma postura anticapitalista, mas de engendrar uma disputa à esquerda pelo orçamento Estado.

Já passei até humilhação (com outros convidados)num desses eventos à frente de uma esvaziada mesa onde o assunto era “políticas públicas do Livro e Leitura, tendo ao redor um monte de barbudinhos ostentando os livros de Marx e que tais, que não faziam a mínima ideia do que estávamos falando. No final foi até divertido.

Memórias de um militante cascudo, ossos de um, às vezes inglório, ofício. Um dia essa lógica muda. Espero viver pra ver.

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Trabalhar por anos no atendimento ao público nos permite conhecer muita gente. Mesmo que nunca tenhamos trocado palavras, vários rostos são familiares.

Na biblioteca sabemos o nome, o gosto literário e/ou temático, mas em geral, conhecemos poucos detalhes da vida da pessoa.

Tarde de domingo, um rapaz entra na biblioteca lentamente, puxando a perna, balbucia um boa tarde em tom de lamento. Conhecia o rosto, já havia visto algumas vezes, nesses anos.

Ele devolveu alguns livros e DVD e percorreu as estantes lento, ofegante. Prestei mais atenção, ouvi uma reclamação de dor.

– Bom dia, tudo bem?

– Bom dia.

– Precisa de algo, o que houve na perna?

Marcelo tem 52 anos, trabalhou como ajudante geral em algumas empresas terceirizadas para as grandes montadoras. Ultimamente, trabalhava como auxiliar de limpeza num shopping da região do ABC. Há três anos começou a sentir dores na região lombar que só vieram aumentando. Não conseguia e não podia carregar peso, mas carregava. Laudos, afastamentos, dor, dor crônica, encarregados incrédulos, dor, dificuldade em se locomover, pedido de aposentadoria recusado, advogado omisso, demissão por justa causa.

Resumir uma tragédia em um parágrafo pode reduzir o impacto e banaliza-la. O duro é vivê-la.

Marcelo no fim da pequena descrição da sua triste epopeia recente, ainda teve o estado de espírito de rir do próprio infortúnio. Registrei os livros e dvds e fiz o pouco que ainda posso:

– Você era apenas um rosto que eu conhecia há anos, agora sei um pouco da sua história, Marcelo. Boa sorte pra você.

– Obrigado, pena que você pegou apenas a parte triste da história…

O rapaz saiu sorrindo e puxando a perna. Segue a vida nesse domingo qualquer…

O Téo tem um pequeno armazém perto da biblioteca em que eu trabalho, chamado Laticínios do Bom Velhinho. Durante muitos anos, ele trabalhou ali como empregado. Atendia no balcão , entregava a domicilio, carregava e estocava produtos.

Passado os anos, ele pactuo uma sociedade com seu sogro e fez uma proposta pros antigos donos. O típico negócio que todo mundo fala “ih, não vai dar certo” – e deu certo.

Historicamente, o grosso da clientela do Bom Velhinho, foram os trabalhadores de rua e os funcionários das redes de lojas e dos pequenos negócios que existem ali no centro de São Bernardo. Dogueiros, ambulantes, o povo assalariado do comércio local. A economia real, das ruas, do dia a dia.

Outro dia, fui comprar queijo (preço ótimo) e outras coisinhas pra café da manhã e saquei que o Teo tava amuado. Raramente ele tá sozinho no balcão, aproveitei a oportunidade e assuntei:

– Tá triste, camarada?

– Tem dia que é complicado, né? Mas é essa crise, a conta não fecha. Perdi muitos clientes, dependia muito do comércio de rua, dos ambulantes, muita gente desistiu, quebrou.

– Pois é Teo,…- falei um minuto sobre os motivos básicos da crise, a ladainha que todos conhecem.

O Téo abaixou os olhos concordando e me disse em volume baixo:

– O problema é que tô apertando as contas no máximo pra não mandar ninguém embora, tenho funcionário com filho pequeno, mãe doente etc. Não pago muito, mas pago direito. Eu já tive ali e sei como é, não quero mandar ninguém embora, ficar desempregado é duro demais.

Foi sincero o Téo, foram fortes as palavras. Não teve nada do self made man, vencedor, empreendedor, o que vigorou foi a luta pela sobrevivência do trabalhador e uma réstia de solidariedade de classes, que, sem romantismo e por força da necessidade, pode ruir a qualquer momento.

Nesse dia de massacre da Black Fake Friday, sei que muitas coisas inúteis,em suposta oferta, passarão diante das minhas vistas. No massacre de imagens e impulsos, não vou comprar uma ruela, nada. Meu máximo de consumo será o queijo e algumas frutas no Bom Velhinho, é promessa. Sem a ilusão de estar sendo altruísta ou revolucionário (sei que muitos trabalhadores dependem do sucesso das black friday da vida), mas como marca íntima de uma pequena solidariedade.

Há anos frequento esse ambiente.

Parte deles para ganhar a vida.

De quando em quando, no fim do expediente, paro e olho os livros imóveis, o cessar de corpos e buscas e o silêncio. O interromper das indagações, das descobertas e das novas incertezas.

Os livros parecem estar em constante compasso de espera. Ora parceiros, ora interlocutores.

A biblioteca silencia, mas não perde a pose. Descansa esperando a hora de escurecer de vez.

São 21:03, fim de um dia de trabalho.

O Brasil pós 2016 entrou na rota alucinada de naturalização dos absurdos. Mas o absurdo em foco não é um absurdo qualquer. Ele veio em duas camadas que se apresenta como uma regência é uma complementariedade coerentes.

A primeira camada, a da performance, usa as pautas moralistas como fonte de energia. Invade exposições, criminaliza aborto mais do que já é, retira gênero da vida, reduz racismo a mimimi, transforma direitos em privilégios, a exacerbação dos aparelhos repressivos. Ela é performática, mas fere e mata de verdade e tem a dupla vantagem de entrincheirar e dividir a esquerda (e sua possível e presumível resistência) ao mesmo tempo que gera lucros e espaço político para a direita.

A segunda camada, a da fratura política econômica, embala as riquezas naturais para consumo e exploração externos, destrói o setor público, privatiza a vida, destrói direitos trabalhistas criando um exército contingente de desempregados e subempregados, eleva o tripé neoliberal (superávit primeira, meta de inflação, câmbio flutuante) à Santa Trindade, criminaliza a coisa pública, ao mesmo tempo que a libera à sanha de criminosos, judicializa e criminaliza a política e para tal usa tanto os criminosos da política como os seus julgadores tendenciosos, eleva a competição entre tudo e todos como a palavra que dá sentido à nação.

A injunção dessas duas camadas é a chave mestra da hegemonia neoliberal. Tudo isso junto provoca um atordoamento cotidiano, uma sensação de transe constante, que, do mesmo jeito que apavora as pessoas, as torna impotentes. Sem contar o adesismo suicida daqueles que se guiam pelo ódio e ignorância, a despeito da perda dos itens essenciais que lhes garantiriam o mínimo de dignidade.

O Banco Mundial, as agências de risco, os comandantes do capital são os druidas desse laboratório da perversão financista e predatória. É isso tudo que nos acua e nos torna vulneráveis, que nos joga na vala do niilismo ou da sedação.

Como reagir?

Há exatamente um ano, foi iniciado, através de um edital público, o processo eleitoral do Conselho do Plano Municipal do Livro, Leitura e Literatura. Posteriormente, o Conselho foi eleito de forma legítima, aberta e democrática.

Depois de convocar apenas uma reunião do Conselho esse ano, o atual Secretário, André Sturm, através de decreto, suicidou a composição eleita por dois anos, no processo do ano passado, e se investiu do poder de nomear monocraticamente um outro Conselho (que até agora não nomeou).

Não é um caso isolado, o Governo Doria e seus diletos secretários tem sido com os Conselhos de representação popular das diversas áreas.

Em suma, jogaram na lata do lixo todo um processo democrático. O principal argumento do rude Secretario, foi de que o Conselho eleito era “uma acão entre amigos”, não tinha legitimidade. Ele prefere a legitimidade de seus próprios amigos.

Democracia sem povo é assim.

Bolsonaro é um fenômeno interessante de observar. Interessante, mas não por isso menos perigoso. É o fio da meada.

O tal capitão é o primeiro candidato de extrema direita com real chances de incomodar os favoritos numa corrida presidencial no pós ditadura.

Bolsonaro tem outros similares na história, em 1955, por exemplo, Plinio Salgado, o líder integralista, postulou a presidência da república, pelo PRP (Partido de Representação Popular) e obteu 8% dos votos. Mas o que difere os dois exemplos é o fato de que Plinio era um outsider controlado pelo estabilishment, Bolsonaro está saindo do controle e quer negociar, o preço não se sabe.

Bolsonaro surge em outro contexto, ele é o clássico bode na sala, um incêndio criminoso para gerar lucros com o seguro. Ele surge de uma mistura de neoconservadorismo e ultraliberalismo gestado e estimulado nas redes sociais já há algum tempo, um ambiente que passou anos sendo visto como folclórico e que não tinha nenhum nome expressivo que o representasse no campo politico. O velho discurso moralista, misógino, homofóbico e violento do capitão se adaptou aos memes politicamente incorretos das redes e o ungiu como a cabeça que faltava ao camarão.

Mas por que ele é o bode na sala? Nas prévias informais, Bolsonaro foi e é estimulado por um cálculo. Sua maior qualidade é representar o medo de que venha a dar certo e com isso impulsionar uma alternativa de centro direita. O problema é que uma alternativa de centro direita tá difícil de ser inventada. Dória, Alckmim, Meireles, Huck? Até agora nada de embalar, todos derrapam.

O niilismo e a descrença da população em relação à política, foi o investimento diário da direita nos anos Lula/Dilma. O massacre moralista engoliu os parlamentos e o executivo, a “mão invisível” e classista do judiciário só aprofundou a crise de despolitização. Tudo isso adicionado ao ódio pariu Bolsonaro e as violências afins. Agora, ele é o perfeito bode na sala, um tanto pesado pra ser retirado apenas com desejos e simples manipulação.

As contradições são o fardo mais pesado de carregar. Desconstruir Bolsonaro é tentar curar com bandaid a lepra da despolitização. O frankestein do parlamento saiu do controle, não é à toa que um dos agentes dessa destruição, a Folha de São Paulo, já tenta tornar palatável um suposto bolsonaro costumizado. A farsa tentando a construção de mais uma farsa.

Diferente dos 8% obtidos pelo Plinio integralista de 1955, o capitão Bolsonaro, hoje ostenta 20% de intenção de voto. Claro que por ora são apenas intenções. O que assusta é que estas intenções verbalizam toda uma construção simbólica erigida minuciosamente nos últimos anos: a desqualificação da política.

E 2018 se aproxima e o bode berra bem alto.

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