De 2009 a 2013 rolou o projeto Agentes de Leitura na cidade de São Bernardo do Campo. Jovens de 18 a 28 anos que recebiam formação de mediação de leitura e livros para promover ações de leitura na casa das pessoas do seu bairro. Foi um convênio entre o Ministério da Cultura e a Prefeitura, um dos programas que colocavam o município no protagonismo das ações que entrecruzam educação e cultura.

Foram duas turmas que receberam formação e enfrentaram o desafio de atuar longe dos espaços protegidos e tradicionais da educação e cultura, ação direta com a população. Tive o prazer de gerir o programa junto com os companheiros de trabalho da Secretaria de Cultura. Foi um desafio que nos deu a oportunidade de conhecer pessoas e lugares da cidade que desconhecíamos, uma ação singular na leitura e no diálogo. Fizemos amizade e criamos laços com alguns agentes, pudemos trocar experiências e vivemos juntos com esses jovens o desafio de desvelar a cidade.

Semana passada recebemos convite para a despedida de uma das agentes, Luana Santos, que, acabou de se formar em Psicologia e está deixando a cidade rumo à Brasília. A despedida rolou hoje no bar/lanchonete de um outro agente de leitura, o Diego Lisboa no Jardim Silvana, periferia de SBC.

Moças e moços guerreiros, que nunca abandonam a luta. Orgulho grande e emoção de perceber que os laços de amizade e os projetos em comum, estão vivos cinco anos após do programa terminar, somos espelho e nos espelhamos nesses jovens.

Os agentes de leitura foram fruto da era Lula/Dilma. Essa despedida tem tristeza e tem alegria. Tristeza por algo que já não há mais, alegria porque foram criados frutos que vicejam lindamente. Ontem, uma tristeza nos abateu, vinda de um julgamento injusto de um cara que tem tudo a ver com esses agentes, hoje, esse encontro cheio de carinho e emoções nos deu o alento para continuar. Não tem como não estar emocionado.

Boa sorte Luana Santos, obrigado por não esquecer de nossos dias juntos, não é adeus, é um até logo.

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Não adianta ficar acusando o Ciro Gomes e nem quem quer seja, por dizer que confia na justiça. Nós fizemos esse discurso desde o mensalão. Erramos. Mesmo que discordando da direção do partido, fomentamos e endossamos a esperança na saúde das instituições e na confiança à justiça que foi o discurso oficial do Partido dos Trabalhadores com relação a todos os contorcionismos e manipulações jurídicas já utilizadas com Zé Dirceu, Delúbio, etc.

Foi assim que apoiamos a lei da ficha limpa, lei da delação premiada, a escolha “técnica” de nomes para compor o STF e o respeito à autonomia da PF e PGR. E antes que algum republicano renitente venha me acusar de apologia ao autoritarismo, digo: o contrário da corda frouxa do republicanismo não é o autoritarismo, mas a politização das escolhas que sejam coerentes com um programa do campo progressista.

Despolitizar as escolhas de um governo em nome de uma suposta parcialidade ou de um republicanismo anódino foi um erro que nos deixou mais frágil diante da luta de classes (termo que também foi abandonado na bonança do governabilidade).

O golpe foi dado e a direita provou estar unida para os próximos passos. Abandonar as ilusões é um dos ingredientes para enfrentar as novas etapas dessa luta. Eleição sem Lula é fraude, o golpe todo é uma grande fraude e vivemos um estado de exceção, não adianta esperar a ordem e o funcionamento normal das instituições.

Lula foi e é criticado inúmeras vezes por ser conciliador. Por fazer acordos com aqueles que na primeira oportunidade o traíram e muitas vezes deixar de avançar graças a esses acordos. Não são poucas as vezes que a necessidade e o papel a cumprir nos leva a profundos abismos e a conciliação é a única forma de continuar.

Eu fico pensando na minha vida prosaica, de experiência e importância muito menor que a de Lula, quantas vezes na trajetória profissional e nas experiências políticas, tive que sentar e fazer acordos, trabalhar e “acreditar” em gente que na primeira oportunidade roeu a corda. Algumas vezes eu tinha certeza da trairagem na própria mesa de negociação, mas era obrigado a fazê-lo, pois o objetivo final passava por esse percalço.

Eu vejo como um filme todos os rostos, discursos, práticas e performances que passaram. Alguns “amigos”, outros declarados desafetos. Uma verdadeira galeria do fingimento e da dissimulação e não raro, do escárnio. Alguns rostos e práticas ainda estão muito próximos. É preciso ver isso de perto para aprender e aprender a viver com esse peso. Assim é a política e os corvos existem.

O que aprendi é que a vida real muitas vezes te leva às fronteiras mais desagradáveis e, nesse contexto, as convivências mais bizarras são inevitáveis nessa trajetória.

Lula hoje enfrenta mais uma revoada de corvos, dedos apontados e inquisidores. Não tenho condições de defender tudo que ele fez ou lhe dar salvo conduto, o que tenho bem claro é a minha solidariedade e o desejo que ele tenha o direito de defender aquilo que fez e de se defender daquilo que não fez.

O golpe deu certo.

O golpe foi arquitetado e implementado por e para o 1% de muito ricos. Em um ano, eles obtiveram 13% de aumento na concentração de renda. É uma vitória maiúscula, o objetivo de aprofundar o abismo entre pobres e ricos está sendo atingido.

A vassalagem que ganhou uma comissão (classe política, judiciário e aparelho repressivo) e os soldados rasos que perderam tudo que tinham e o que pensavam que tinham (patos, haters, etc), são, como sempre foram, os coadjuvantes da história.

Heautontimoroumenos é o título de um poema do Baudelaire. O termo pode ser interpretado como “carrasco ou verdugo de si mesmo”.

Lembrei desse poema de Flores do Mal quando me deparei com essa foto na tl do Irajá Menezes: São Paulo, bairro do Jabaquara, mato na rua (está espalhado pela cidade toda), a cidade linda do falsário eleito. Alguns falsários associados vão gritar que quem suja e destrói a cidade é o povo, que o falsário mor não tem culpa. A lógica que culpa e da o mérito ao indivíduo. Quem faz gestão da verba para a zeladoria?

Estultices à parte, Dória é o exemplo do carrasco de si mesmo. Eleito para cuidar da cidade, ele a abandonou, extinguindo o sentido de seu mandato, abrindo mão do poder lhe foi conferido.

Engano.

O carrasco se imola com um propósito: provar para todos que o poder público não dá conta da cidade, que a cidade é castigada pelo Estado que deve ser mínimo. É assim que ele exerce o poder. É um abandono pensado.

A tese é absurda, um tiro no pé?

Em tempos de assalto aos fatos, a farsa se transforma em verdade e Doria fatura com a própria omissão. Cria a epidemia pra vender a vacina. É um método que está sendo copiado em varias cidades pelo Brasil. O carrasco de si mesmo tem a guilhotina de plástico, tal qual a sua face.

O Heautontimoroumenos

À J.G.F.

Sem cólera te espancarei,

Como o açougueiro abate a rês,

Como Moisés à rocha fez!

De tuas pálpebras farei,

Para meu Saara inundar,

Correr as águas do tormento.

O meu desejo ébrio de alento

Sobre o teu pranto irá flutuar

Como um navio no mar alto,

E em meu saciado coração

Os teus soluços ressoarão

Como um tambor que toca o assalto!

Não sou acaso um falso acorde

Nessa divina sinfonia,

Graças à voraz Ironia

Que me sacode e que me morde?

Em minha voz ela é quem grita!

E anda em meu sangue envenenado!

Eu sou o espelho amaldiçoado

Onde a megera se olha aflita.

Eu sou a faca e o talho atroz!

Eu sou o rosto e a bofetada!

Eu sou a roda e a mão crispada,

Eu sou a vítima e o algoz!

Sou um vampiro a me esvair

– Um desses tais abandonados

Ao riso eterno condenados,

E que não podem mais sorrir!

Ontem aconteceu um ato de apoio à candidatura de Lula na Casa de Portugal em São Paulo. O apoio ao direito de Lula se candidatar transcende à eleição, ultrapassa a torcida do contra ou à favor de Lula eleito, é um apoio ao estado de direito. O jornalista Pedro Alexandre Sanches estava cobrindo o evento e entrevistou um dos apoiadores do ato, o cantor e compositor Odair José. O goiano está na estrada desde o final dos anos 60 compondo, cantando e tocando em todo canto do Brasil. Sua obra foi fortemente influenciada pela jovem guarda, pelo rock e por nosso cancioneiro romântico. As letras são crônicas de um Brasil popular, sem filtros e maneirismos. Odair é um cara do campo popular e estava confortável no lugar que conhece e de onde nunca saiu, é o paio natural.

Tenho duas histórias pessoais que envolvem a música e o artista Odair José.

A primeira, aconteceu nos anos 70 (provavelmente 1975, 1976). Eu morava numa rua com poucas casas em que aos poucos foram sendo construídas sobrados e pequenos prédios. Moleque que brincava na rua, circulava e fazia amizade com os trabalhadores da construção civil. Migrantes nordestinos, solitários, que viviam longe da família e que tinham na música a companheira e confidente que suavizava a distância e a ausência dos afetos. A música popular acompanhava esses trabalhadores nos rádios de pilha e nas vitrolas portáteis, a rua ficava muito musical. Entre eles tinha o Cícero, um paraibano simpático, que jogava bola com a molecada nas horas de folga e vivia cantando. Cicero vivia andando com discos embaixo do braço. Compactos e elepês. Eu era um moleque chato que balizava o mundo em dois universos: a música e o futebol. Nada me encantava mais do que uma coleção de discos, um universo que revelava as predileções e a história das pessoas.

Um dia, o Cícero me mostrou a sua valiosa coleção, bem cuidada e muito ouvida. Estavam lá, que me lembre, Fernando Mendes, Paulo Sergio, Evaldo Braga e em maior quantidade, Odair José. Cícero falou um pouco das musicas que mais gostava, mas se deteve em Odair como um parceiro de suas andanças por vários locais do Brasil. Trilha sonora dos prédios e sobrados que construiu. A velha saga do artista popular que ajudava a tornar a vida daquele trabalhador menos dura e solitária. Cícero e Odair conheciam o país como ninguém. Um era famoso e outro anônimo, mas de alguma forma dialogavam dentro da linguagem simples e real das ruas. Um frase ficou na memória:

– Ele conta a minha história…

O prédio em que Cícero trabalhava, ficou pronto e ele sumiu na vida. Foi construir outro pedacinho do Brasil. Deixou pra mim um aprendizado simples e vital: a música nos ajuda a entender o que somos e em alguns momentos é o diálogo possível dentro da nossa solidão.

A outra história é mais recente. Um amigo, músico experimentado, me contou que participou da gravação de um disco com o Odair José. Confessou que pouco o conhecia e que nutria algum preconceito pela música excessivamente simples que ele fazia. No dia que começaram as gravações ele foi ao estúdio um pouco entediado prevendo mais um trabalho sacal. Logo que iniciou a sessão vieram a surpresa e a constatação de sua ignorância. Nas palavras desse amigo músico, Odair é o que eles chamam de mestrão, o cara que sabe tudo o que quer e precisa para fazer sua música, que não vacila, conduz a gravação com firmeza e objetividade. Forjado em milhares de horas de shows e gravações, sabe muito bem qual será o próximo passo. Um trabalhador da música, que não precisa de guia e manuais para seguir seu caminho, o artista popular. Segundo esse amigo, a gravação fluiu com muita curtição, entre a simpatia e as composições simples de Odair José, que mudaram totalmente de sentido para ele depois dessa experiencia.

Falei de Lula e contei essas duas histórias, porque no final da entrevista com Pedro Alexandre, Odair disse que confia em Lula, porque como ele, o Presidente veio das ruas. Uma frase emblemática e desafiadora para todos que apoiam o campo popular. A esperança de mudança vem das ruas, foi exatamente esse recado que o compositor goiano, com quase cinquenta anos de estrada, deixou pra nós. Simples e direto, o Odair. Foi assim que ele ajudou a construir um pouco da história de nosso país e felizmente não desistiu.

Nos anos 70, Odair vendeu milhões de discos e ganhou o Brasil, o tempo passou e gostar de Odair José ficou chique e cult em mais uma dessas ressignificações da indústria. O fato é que ele continuou onde sempre esteve, na estrada, nas ruas cantando a vida das pessoas, íntegro e popular.

O artigo de William Waack na Folha é uma prova inexorável de sua canalhice militante, sempre a serviço de um projeto ideológico.

Para se defender sua ofensa racista flagrada, lança mão do auxílio luxuoso do pensador Pondé e das sua amizade interracial com Glória Maria.

É uma fraude que explicita suas verdadeiras razões e motivos.

O alvo do ilibado jornalista são “os grupos organizados das redes sociais” que querem atingir e destruir aquilo que ele denomina guardiões da verdade, leia-se os grandes conglomerados midiáticos que ele defende como militante pago há anos.

As poderosas redes são ameaçadas pela turba internética? Isso só pode vir de um raciocínio desonesto e servil. É a defesa da via de mão única dos capos midiáticos, sem contrapontos e questionamentos

Sua defesa é uma empulhação explícita e não perde viagem ao embutir uma mensagem direta de que é preciso conter o descalabro das redes sociais. Para se defender da pecha racista (comprovada por um fato verdadeiro) defende a censura. É o opressor defendendo o direito de oprimir ainda mais.

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