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Arquivo mensal: abril 2018

A rua é o meu chão preferido. Mesmo que ela não me traia, que me conte a verdade. A verdade das ruas é dura, ela aparece nos rostos anônimos, em quem anda fora dos carros, dos coletivos, a rua dos trecheiros, de quem faz da errância o caminho.

A rua é o chão que me acolhe quando sinto desamparo, não em busca de respostas, mas da real que esclarece.

Vou da Barra Funda ao Bom Retiro.

No meio do toada um pedacinho dos Campos Elísios. Ando na rua das repartições estaduais quase abandonadas. Defronte à Diretoria de Ação Social, penosa coincidência. Um prédio bonito, que teve os seus dias, hoje encardido, sem função. O bairro que foi do baronato do café, hoje é o Estado ausente. Prédios prontos pra dizer não a quem os procura. É um abandono planejado.

Um dos retratos de uma São Paulo que acolhe e repele.

Na Alameda Nothmann, coração dos Campos Elísios, um rapaz negro, cabelo a Peter Tosh, se aproxima sorridente e me mostra feliz um pequeno painel com um tecido colado e nele desenhos egípicios:

– Achei ali na frente daquela casa (um sobradão do século passado), vale um bom dinheiro lá na República, mas eu tenho medo de ir lá porque a rapaziada é muito violenta.

Pensei na geopolítica das ruas, um andarilho dos Campos Elísios receoso de ir fazer escambo nas ruas da República. A rua e suas abrangências.

Avanço na Alameda com a Rio Branco, no meio do quarteirão um policial recomenda:

– Moço não vai por aí, é perigoso.

Olho em frente e vejo uma concentração de corpos esquálidos, pra lá e pra cá sem rumo. Meneio a cabeça pro policial e sigo seu conselho sem crítica. Em outros tempos seguiria sem medo. Sigo pela avenida Rio Branco, tarde bonita desse outono, contraste para essa cidade que nunca foi tão triste.

Faço o contorno pra chegar no Bom Retiro. Vou pra Casa do Povo, compro um livro na biblioteca coletiva e saio.

Volto pra rua e sigo contornando o Parque da Luz, vejo dois trios separados na calçada jogando um carteado em cima de um papelão. Homens do povo, com roupas rotas, concentrados nas cartas, um ritual silencioso. Curioso este movimento lúdico nas beiras do parque. O jogo da vida.

Em frente à Pinacoteca atravesso e sigo pra Estação da Luz, o sol segue morrendo, esfria a tarde e as cores vão ficando densas, fortes. Um senhor com uma mochila pede um dinheiro, dou um e vinte, puxo uma conversa e seguimos ladeados:

– Meu nome é Nelson, já tive comércio e família. Caí na rua há muito tempo, bebidas e tal. Cheguei a voltar pra casa. Aí, minha filha foi presa, tá presa, artigo 157. Ela é inocente, foi o namorado, ela pagou junto. Eu não tenho mais casa, nem pra onde voltar

O rosto anônimo da rua que tem sua história que nunca é linear, segue:

– Hoje em dia a gente tem medo de GCM, os PM estão de boa, nem mexem com a gente. GCM vem com a rapa e toma cobertor e as coisas da gente. É ruindade, muita ruindade…

Me despeço de Nelson e uma fala familiar, dura de ouvir, se repete:

– Moço, obrigado por falar comigo, as pessoas têm medo da gente, fogem, é bom ser ouvido…

O frio chega no fim da tarde, o sol já é pálido, uma nuvem no cimo do horizonte da Estação Carlos Prestes chama a atenção, parece um sinal…é São Paulo mudando seu turno.

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A biblioteca em que trabalho fez 60 anos. Esse final de semana aconteceu uma maratona de 24 horas de atividades de culturais para comemorar.

Desses sessenta anos, foram vinte e cinco de participação direta e indireta na vida da Biblioteca Monteiro Lobato SBC.

Rostos conhecidos e incógnitos, historias bonitas, tristes, dramáticas, engraçadas, alguns poucos conflitos.

Companheiros de viagem que ainda estão aqui, outros que estão distantes, outros que se ausentaram para sempre.

Participar de uma instituição pública que deu relevo à formação e às descobertas de milhares de pessoas tem um gosto especial.

Em algum momento desse final de semana, eu me detive no todo dessa história, história que não é pacífica, que carrega conflitos e diversos pontos de vista.

A sexagenária biblioteca do centro de São Bernardo do Campo percorreu vários caminhos. E continua aberta, pública e com d luta, irrestrita.

Deixo aqui a minha homenagem às diversas pessoas que construíram a história da Biblioteca Monteiro Lobato SBC e um salve às outras tantas que construirão o seu futuro.

dd e x

E no meio de um contexto turbulento do país, chega um fim de tarde e uma pergunta:

– Moço, você inventou todos os livros daqui?

Eu me surpreendi e arrisquei uma resposta:

– Não, os livros daqui foram inventados por muitas pessoas, de muitos lugares diferentes. Eu fico aqui cuidando para que outras pessoas possam descobrir as histórias que estão neles.

Maria Eduarda tem seis anos e veio na biblioteca com irmã Laura de 3 anos e a mãe. Depois da pergunta, ela desandou a falar de livros, da escola, das amigas e de lugares. Sorriu e foi mergulhar na estante.

Fiquei pensando sobre a resposta improvisada que dei: pessoas que inventam livros para outras pessoas cuidarem e então outras pessoas descobrirem as invenções.

Acredito que esse enredamento é um bom jeito de explicar a biblioteca pública e tornar a vida menos complicada.

Em 1989, na véspera do segundo turno da eleição Lula x Collor, fiquei tomado pela ansiedade e expectativa e passei a noite em claro.

Em algum momento da madrugada desci a Rua Augusta na direção Paulista-Centro. Era uma São Paulo diferente, era um Brasil totalmente diferente.

O dia seguinte foi de esperança e anticlimax no final da noite. Foi uma derrota nas urnas num momento em que os horizontes eram amplos e claros.

Lembro de um cartaz e a foto de um Lula jovem e a frase que eu nem gostava muito “sem medo de ser feliz”, naquele momento de pós ditadura o medo era um impeditivo. Aprendemos a não ter medo de derrotas.

Vinte e nove anos passaram…

Hoje a tardinha me desliguei das redes sociais, de qualquer veículo e sai pra tomar uma cerveja com meu sobrinho. Não queria notícia, só silêncio. No final do encontro já era noite e eu estava ali na mesma Rua Augusta.

Desci uma outra Augusta, distópica, a Augusta de 2018, não sei se forcei o deja vu ou a história me levou ao mesmo lugar. Reconheci os passos e o tanto de vida que passou, me senti um pouco ridículo um pouco cruel em romantizar um momento triste. De 1989 a 2018 foram muitos episódios.

Não vi, me recusei a assistir as imagens de Lula preso. Sei que a massificação das imagens ainda vai me pegar e terei que reconhecer o fim ou começo de um ciclo. Reconhecer que não existe mais o jovem de 23 anos e aquela Augusta de outra década. Precisamos aprender que as vitórias passam.

O que tenho comigo é que ninguém tira de mim esses vinte e nove anos, ninguém rouba minha história, minha consciência, minhas convicções. Li por ai que o Lula é uma ideia, não é mais um homem. Não sei se concordo. Prefiro pensar que ele é ideia, que é escolha, que é contradição e convicção e que esse todo é que o torna mais que um homem, um sujeito histórico.

Ninguém apagará essa história coletiva.

E a história volta pra São Bernardo novamente. Sem bairrismo, sem exagero, ontem e hoje ouvi de perto as sirenes, os ruídos, palavras de ordem, ainda que outras, que ouvia menino no final dos anos 70, começo dos 80, lá na Vila Euclides.

Eram ruídos da história, ruídos que com o tempo se tornaram sons muito nítidos, para o adolescente, o adulto, e para essa maturidade que vivo hoje. São os sinais de uma história vivida, na qual a política tem papel fundamental. A materialização das transformações, e antes as escolhas, os erros cometidos e o aprendizado todo que fazem da luta um ato contínuo.

Na noite de ontem e na tarde/noite de hoje estive na Rua João Basso, revi amigos, vi conhecidos, vi gente que nunca tinha visto, todos muito familiares, unidos no mesmo objetivo, sem porém esconder divergências. A esquerda brasileira estava de alguma forma presente na João Basso ontem e hoje. Não apenas pelo descalabro de um julgamento injusto, mas pelo simbolismo que o maior nome do campo popular carrega. Há muito tempo que Lula é muito mais que Luis Inácio, quem estava ali hoje sabe bem disso.

A indignação e a perplexidade diante de um momento terrível da história brasileira, no qual a direita perdeu todos os pudores ao exercitar seu ódio e seu desprezo pela classe trabalhadora, ganharam um breve intervalo, um respiro, uma oportunidade para que a esquerda construa mais do que uma união supérflua e conjuntural, mas que demarque como um consenso a necessidade de reconhecer a luta de classes como um elemento em comum, que conduza os próximos passos.

Como disse acima: seis de abril de 2018, a história voltou a usar São Bernardo como palco. Estou aqui com amigos do passado, do presente, todos ávidos para que sejam também uma pequena parte da história do futuro.

#LulaLivre

Um dos meus temas insistentes é a observação das vida nas ruas, o lado cru da cidade.

A rua denuncia a crise, os mais vulneráveis, o grupo que recebe a primeira estocada da maquina produtora e reprodutora da desigualdade são os moradores de rua.

A visão mais crua e direta da totalidade está expressa nas calçadas, nos baixos dos viadutos, no ir e vir de carroças, andarilhos, solitários e gregários que rodam a cidade.

É miséria não é igual em toda parte, só afirma isso aquele que olha o mundo pelo vidro do carro ou pelos frios textos. A vida é ao vivo. A miséria se espalha com a aprofundamento da crise, a vida precária de quem precisa dos serviços sociais básicos vai se deteriorando na medida que os atendimentos são extintos ou que a burocratização os torna inacessíveis. A austericídio significa fome e morte imediata para os mais vulneráveis.

E tem de tudo nas ruas: adictos, pessoas com algum sofrimento mental, desiludidos, ex detentos, solitários, famílias inteiras desabrigadas, marginalizados de várias matizes. Essas pessoas não são uma massa cinza, homogênea, cada um tem sua história de dor, de abandono, de desilusão, de violência, de desapego, de desistência. Cada história tem que ser considerada, o amiúde faz a grande diferença.

O que eu tenho observado é que a coisa tem piorado muito. Moro na Barra Funda, perto do Minhocão, onde a concentração e o trânsito de moradores de rua é intenso. Não é apenas o número de moradores de rua que vem aumentando, mas a precariedade em que eles vivem. A rua está mais pobre, o abandono do Estado e o retrocesso nas políticas públicas são nítidos.

Nos último mês tenho notado dois aspectos que indicam esse esgarçamento: constantes brigas entre o povo da rua e pessoas comendo restos diretamente do lixo.

Existem códigos de comportamento nas ruas e o respeito é base de boa parte deles, brigas não são regra, mas exceção, o desespero e a competição pela sobrevivência podem mudar essa lógica. Sobre comer sobras no lixo, fica mais claro o aumento da miséria, o lixo é a ultima instância de quem tem fome.

As minhas observações são puramente empíricas, carecem de cientificidade, no entanto prefiro me fiar nelas do que em índices e números de interpretação duvidosa para medição da crise que nos acomete. A cidade, suas ruas e suas pessoas relatam em primeira mão o que é (seria) a grande prioridade. Urge uma resposta imediata, pois a população de rua tende a aumentar.

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