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Arquivo mensal: maio 2019

A conexão entre os estudantes e os trabalhadores é uma das urgências para combater os retrocessos e os ataques desse governo.

A transversalidade da educação é o elo perfeito para colocar em funcionamento essa rede com alto potencial.

Ontem na caminhada do Largo da Batata/Paulista, mais precisamente na travessa da Joaquim Antunes com a Rebouças, três motoboys e um biker com os símbolos da Uber Eats e do Rappi, atravessavam a avenida indiferentes aos slogans, refrões, cartazes e palavras de ordem da passeata.

Eram quatro jovens com pressa de entregar comida para garantir a própria comida. Os precarizados de hoje são a mostra viva do que esse governo planeja, em maior em menor escala para cada caso, para o futuro dos jovens que estavam na passeata.

Como disse meu amigo João Luiz Marques no exato momento: é a reforma trabalhista atravessando o protesto.

Trabalhadores e estudantes historicamente são os vetores das grandes mudanças.

Eles precisam conversar, eles precisam estar juntos, eles precisam compartilhar espaços e ideias. Isso é urgente, essa é a força motriz da resistência e de uma possível reação.

Hoje não pude ir pras ruas. Obrigações profissionais me impediram. Mas, acompanhei pelas redes, pela minha companheira e por amigos o que rolou.

Foi o primeiro conjunto de manifestações que atingiram em cheio os setores progressistas da classe média desde o golpe.

As ruas encheram e o bairrismo, o clubismo eleitoral e temático dessa feita não atrapalharam a mobilização.

Pode ter sido o mote para uma ação efetiva das esquerdas, que finalmente traz a oportunidade de sairmos da posição reativa.

A politização que o tema educação suscita é naturalmente transversal. Se conecta às pautas dos direitos humanos e ao mundo do trabalho com facilidade. Essa conexão pode ser poderosa.

Dizem que historicamente são os setores médios que abrem o caminho para as reações das massas. Há um horizonte de lutas a acontecer.

Pode parecer descontextualizado, mas uma fala do Lula na entrevista ao Kennedy Alencar me perseguiu hoje o dia todo:

“- Eu não esqueço nunca, quando eu tomei a decisão de financiar os puxadinhos, o cara construir um banheiro, um quarto, um sala a mais. Isso não cabe na cabeça de um Ministro da Fazenda, porque isso não se aprende em Harvard, Chicago ou na Unicamp…”

O Lula deve estar nas ruas nos próximos dias. Um jeito de libertar Lula e sair da passividade, é juntar a política dos puxadinhos (populares) com o direito à educação pleiteado nas ruas hoje. Essa união dos setores populares com a classe média pode ser a prova dos nove, a virada possível.

Às ruas povo brasileiro, é hora de impor nossos desejos. A política é o caminho.

E se fosse gol? Se essa tarde fosse prolongada. Se o jogo fosse a constante?

Meus camaradas de camisa igual seriam os amigos. De camisa diferente, os opositores. Nunca, ninguém, os inimigos.

A vida fluiria fácil como um contra ataque em cadência. Bola no pé direito de quem é direito, passe no pé esquerdo, de quem é o esquerdo.

As tardes seriam assim perfeitas, como o beijo do sol suave se escondendo entre as nuvensO mormaço seria o pequeno calor.

Depois, era só retomar a bola pra começar o jogo de novo. Gol feito, gol tomado.Todos seríamos camaradas, mesmo o de camisas diferentes. E não importaria jamais o resultado.

Seria um gol de nós todos.

– Boa noite, Sr Ricardo, aceita umas balinhas?

Vinícius é rápido na fala e prudente no volante. Respeita pedestre na faixa, mesmo com o sinal aberto pra si:

– Fim de expediente, muito cansado, Sr Ricardo?

– Sim, sim, mas amanhã é feriado, dá pra relaxar. E você, Vinícius?

– Eu não tenho feriado, 16 horas todo dia, só descanso na manhã do rodízio carro. Não posso vacilar, ainda mais depois do Taylor.

– Quem é o Taylor?

– Meu filho que tá na barriga da minha namorada…bom, já é esposa, ela tá de quatro meses, o Taylor vem ai.

Vinícius sorriu e desatou a contar sobre o dia que soube que o filho seria um menino. Diz ter ficado feliz, mas se fosse menina também ficaria. O tom brincalhão descontrai.

– Trabalhei três anos como ajudante geral numa metalúrgica do Ipiranga, dos dezoito aos vinte e um anos. Carreguei peso pro resto da minha vida, tenho uma dor nas costas que me persegue até hoje.

Aos vinte e três anos, Vinícius diz que não sai mais pra balada. Dorme assim que chega na sua casa ou vai dormir na casa da namorada/esposa. O sonho é montar um negócio próprio e ter tempo pra beber com os “velhos amigos”

– Tenho que lutar pra dar uma boa vida pro Taylor. Quando eu era criança meu sonho era dirigir um carro, sonhava em ser motorista. Quando completei dezoito anos, tinha um dinheiro guardado e tirei a habilitação. Realizei meu sonho. Agora tô enjoado, tô cansado de dirigir nesse trânsito. Tudo que é demais enjoa, né?

Triste. Um jovem já cansado do sonho de infância

Acenei com a cabeça em consentimento e me despedi de Vinícius, desejando-lhe sorte.

Queria desejar um primeiro de maio com mais oportunidades e decência aos milhões de trabalhadores sacrificados pelas novas formas de exploração.

Que venha a resistência.

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