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Arquivo mensal: julho 2017

A história do Plano Municipal do Livro, Leitura, Literatura e Biblioteca de São Paulo (PMLLLB/SP) começou a ser construída no ano de 2012 por profissionais e militantes da área. Este não é um mero detalhe, mas indica a sua essência e peculiaridade.

O caráter popular do PMLLLB/SP mostrou mais uma vez a dimensão e a importância da participação na elaboração de políticas públicas.

Foram debates, formulações, disputas (algumas acaloradas) que envolveram os diversos atores dos segmentos do livro e leitura. Para muitos foi a primeira oportunidade de encontrar e poder trocar impressões e informações com agentes de uma área afim. Bibliotecários, professores, editores, livreiros, mediadores de leitura, ativistas, escritores e pesquisadores enriqueceram as plenárias, ocupando um papel central na redação do Plano que envolveu também o Executivo e o Legislativo municipais.

Durante o período de 2012 a 2015, foram promovidos encontros, plenárias, reuniões, audiências públicas, seminários, rodas abertas e democráticas de discussão pelos diversos cantos da cidade. Todas as dificuldades e a complexidade de colher as contribuições e os subsídios para confecção do Plano foram sustentadas pela sociedade civil. A oportunidade de participar diretamente da elaboração de uma lei não é peça vulgar numa democracia nova e cheia de interrupções autoritárias como a brasileira.

O PMLLLB/SP virou lei em dezembro de 2015, depois do projeto de lei do vereador Antonio Donato (PT) ter sido aprovado por unanimidade na Câmara Municipal e sancionado pelo, então prefeito, Fernando Haddad. Em 2016, foi criado o Conselho do PMLLLB formado pelo Executivo, Legislativo e sociedade.

Os representantes da sociedade civil foram eleitos de forma direta, o que corroborou com o caráter popular de todo processo. Os conselhos representativos são uma reivindicação histórica dos movimentos sociais, que ganharam força no período pós-ditadura, ainda que a maioria deles esteja longe de sua consolidação.

Uma lei escrita e aprovada com a participação direta é um grande passo no aprofundamento da democracia representativa. Um Conselho eleito de forma direta e independente do Executivo aperfeiçoa a relação de um governo com a sociedade civil. Parece claro, não? Há, no entanto, gente que não pensa assim.

Em outubro de 2016, João Dória Júnior foi eleito em primeiro turno, vitória legitima e indiscutível. O prefeito eleito nomeou o produtor e cineasta André Sturm para a Secretaria Municipal de Cultura.

De pronto, o Secretário mostrou grande entusiasmo pela área do livro e leitura que gerou uma expectativa nos diversos segmentos e, sobretudo, no Conselho que tem como principal função o acompanhamento das políticas do livro e leitura por meio do estabelecimento de diretrizes e metas constitutivas do PMLLLB/SP.

O fato é que a Secretaria Municipal de Cultura, desde o início da atual gestão, não demonstrou muita simpatia pela composição do Conselho. Ficou clara a má vontade pelo fato de que em seis meses de gestão foi realizada uma única e conflituosa reunião, além da falta de comunicação entre Conselho e Secretaria e a ausência de respostas sobre o cumprimento das metas estipuladas no Plano. Simpatias e antipatias a parte, é bom lembrar que o PMLLLB e o Conselho não dependem da vontade do Secretário de plantão, é uma lei aprovada e regulamentada, com todos os trâmites respeitados.

Na última sexta feira (dia 21), a antipatia virou decreto e a democracia se transformou em autocracia. Explico: um decreto do prefeito Dória fez modificações no decreto anterior do prefeito Haddad e singelamente colocou nas mãos do secretário de Cultura o poder de nomear os representantes da sociedade civil no Conselho.

Através de um único ato, o prefeito desqualificou a luta por um Plano Municipal do Livro, Leitura, Literatura e Biblioteca diverso e abrangente e a construção de cinco anos de profissionais e militantes do livro e leitura de diferentes instancias (sociedade civil, Legislativo e Executivo). Não foi mero detalhe, foi uma verdadeira subversão. De representantes eleitos diretamente, o Conselho passou a ter uma composição biônica, no velho estilo dos senadores e governadores biônicos nomeados pelo Executivo na época da ditadura militar.

Os tempos mudam, mas os métodos são os mesmos. A velha disputa e o conflito por uma cidade mais democrática e inclusiva estão reabertos.

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"Akira S e as garotas que erraram" era uma daquelas bandas com síndrome de Nova York e Londres que circularam pelos inferninhos paulistanos nos anos 80.

Uma das músicas da banda tinha uma frase "o inferno tem mil entradas, algumas são mais conhecidas, outras disfarçadas".

Vale a lembrança.

Pano rápido e voltamos a 2017, ano de nosso senhor.

Estamos conhecendo na carne, no osso, nos olhos, o pior do ultraliberalismo.

O pior do mundo que quer convencer que a competição e o mérito são fatores de equilíbrio e ao mesmo tempo de progresso de uma sociedade.

Um mundo onde a destruição de patrimônios coletivos é a moeda de troca para engordar e vicejar patrimônios individuais, onde o bem comum é visto e valorado como fator de atraso.

O público subjugado ao privado.

O inferno está nas ruas, rápido como nunca, construindo a miséria do dia a dia. O buraco é fundo e há um país inteiro pra vender. A privatização da vida.

Esse inferno que já não se disfarça tem nome, operador e substitutos. Chicago boys, consensos, agenda positiva. O inferno tem mil entradas…

Leio e presencio com frequência debates sobre o esvaziamento das bibliotecas, em especial as públicas.

Discursos, ilações, textões, memes, máximas, até alguns discursos acadêmicos.

E tome chute.

É um tal de "Biblioteca Pública não tem mais sentido", "a internet e o livro digital esvaziaram a biblioteca", "biblioteca tem que ser centro cultural", temos que ressignificar as bibliotecas", "profissionais da informação tem que isso e aquilo".

O blá-blá-blá sempre se encerra sem uma resposta objetiva: esses críticos, julgadores, futurólogos e doutrinadores frequentam bibliotecas públicas? A resposta pra essa pergunta muda muita coisa.

Trabalho numa biblioteca no centro de uma grande cidade.

Ela tem acervo renovado e completo, composto por uma política de formação de acervo? Não.

Ela tem número suficiente de funcionários para atendimento? Não.

Ela tem atividades de formação de leitores que cobrem todas as faixas etárias? Não.

Ela sofre com todos os problemas e deficiências decorrentes da ausência de políticas públicas continuadas que sofre qualquer biblioteca pública.

Trabalha aqui uma equipe pequena e aguerrida formada por bibliotecários e outros profissionais, com defeitos e virtudes de quem atua no serviço fim de uma biblioteca: o atendimento.

O que intriga e contradiz os apocalípticos é que atendemos uma média de 700 pessoas por dia, nesse mês, até a presente data fizemos 375 carteirinhas para empréstimo de livros. Não é pouco.

Os frequentadores retiram de tudo: filosofia, literatura, exatas, sociologia, política, quadrinhos, esportes, etc, além dos diversos usos que a população faz da biblioteca para estudar, ministrar aulas (professores de línguas usam o espaço para aulas individuais e em pequenos grupos), crianças com país, acesso à internet, grupos discussão (vários temas) e para espaço de encontro e convivência. Devo ter esquecido várias formas de uso.

O público faz uso desse espaço público. É um serviço público e totalmente gratuito.

Não, esse não é um post triunfalista. Falta muito e muita coisa tem que melhorar aqui na Biblioteca Monteiro Lobato de São Bernardo do Campo, mas morta decadente e sem pertinência social ela não está mesmo.

O que sugiro é que ao invés de falar e julgar a distância, que os doutos especialistas em "fim de bibliotecas públicas" venham visitar in loco seu objeto de crítica e se possível, deixar uma contribuição com o seu brilho e assim ter uma oportunidade de olhar de perto a realidade.

Biblioteca Pública, lugar de leituras.

#bibliotecapublica #cienciadainformacao # #mediacaodeleitura

O futebol não me deixa. Ainda que a força esteja mais nas lembranças do que na seduções atuais.

Não são apenas os ídolos que nos marcam no jogo da bola. Tem espaço pra tudo: os jogadores folclórico, os turrões, os carismáticos, os que marcam pelas entrevistas e pelo visual. Futebol é estilo e atitude, vai muito além do jogo jogado.

Waldir Arruda Peres foi um desses jogadores marcantes. Menos pela técnico, apesar de ser um excelente guarda metas, do que pela presença, pelo carisma e pelas artimanhas.

O rapaz de Garça começou na Ponte Preta onde jogou ao lado de grandes como Manfrini e Dicá e ficou de 1969 a 1973.

Depois foi pro São Paulo, time onde protagonizou uma das primeiras tristezas da minha vida de torcedor. Waldir era o goleiro do tricolor na decisão do Paulista de 1975 diante da Lusa. Eneias fez um a zero pra rubro verde no tempo regulamentar e a decisão foi pros pênaltis. A Lusa perdeu de 3 x 0 e Waldir foi o destaque na catimba. Eu, aos 9 anos, ouvindo no radinho Evadin com tristeza no coração.

Em 1977, Waldir voltaria a brilhar na decisão por pênaltis, dessa feita diante do Atlético MG no Mineirão. Com a mesma catimba, sorte e destreza, ajudaria o São Paulo a conquistar o título do Brasileiro daquele ano na casa do Galo.

De 1975 a 1982 o goleiro careca com sotaque caipira jogou na Seleção Brasileira. Em 1981, num amistoso com a Alemanha, pegou dois pênaltis seguidos cobrados por Breitner que ficou puto com ele. Integrou a grande equipe de Tele Santana de 1982 junto com Oscar, Júnior, Falcão, Zico, Sócrates, Eder.

Saiu do São Paulo em 1983, jogou no América RJ, Santa Cruz, Corinthians, Lusa, Guarani e encerrou a carreira em 1989 na mesma Ponte Preta que o revelou. Tentou a carreira de técnico, mas não virou, pois treinou clubes de pouca expressão.

Não consigo dissociar o futebol em que acreditei e que me emocionou, de caras como Waldir, posso até imaginar o calvo goleiro, rei das artimanhas, boleiro gente fina, tomando uma num boteco da vida contando e dividindo as histórias do futebol que vi, ouvi e vivi.

O bom goleiro que jogava sorrindo nos deixou nessa tarde de domingo aos 66 anos, muitos deles compartilhados conosco. Adeus.

A biblioteca pública abre aos domingos, faz todo sentido abrir a biblioteca aos domingos.
– Gostou do Victor Hugo? – perguntei meio protocolar.
– Gostei muito, muito mais do que imaginava – a resposta veio carregada com a luz das descobertas.
Lucas tem quinze anos, é aluno da ETI (Escola Técnica Industrial) em São Bernardo do Campo, frequentador silencioso da biblioteca, chegou nesse domingo de sol com os três volumes de “Os Miseráveis” de Victor Hugo.
– Quero renovar o segundo e o terceiro volume, ler com calma, porque está muito legal.
Destravei a conversa com Lucas, ele mostrou interesse pelos destópicos, falou que “Admirável Mundo Novo” foi o livro que mais o impressionou. Indiquei Kort Vonegut Jr, Ray Bradbury, Dickens e a conversa germinou.
– Como você descobriu esses autores, Lucas?
Ele vacilou, pensou e abriu o semblante na resposta.
– Na verdade foi um amigo de escola que indicou autores e fui atrás, ele me influenciou – tinha satisfação na resposta.
O mediador, sempre o mediador, amigo, pai, irmão, mãe, professora, bibliotecário, a figura do mediador sempre fundamental para a leitura e o leitor.
Troquei mais algumas palavras com o Lucas e ele sentou entre livros e iniciou mais uma etapa no exercício de descobertas. É feliz o Lucas, fez feliz esse domingo de trabalho.
Faz todo sentido abrir a biblioteca aos domingos.

A cada manhã uma novidade, um tapa na testa para acordar. 
Enquanto um mundo que você demorou cinco décadas para ruminar e entender se dissolve sob seus olhos, a vida corre, as obrigações se acumulam, as perguntas querem respostas. 
A política distante e a mais próxima, aquela do dia a dia, se misturam. Não há tempo, pois tempo é luxo, para se perder.
Há uma receita, rock, tango, samba, jazz, soul, para dar um mínimo de respiro…


– Joguei na base da Lusa em 1980, 1981, eu era muito boêmio e não deu em nada – Santana sorriu acanhado pra disfarçar o dissabor.

Abordei o Santana na esquina da Major Sertório com Cesario Mota Jr, no coração da Vila Buarque. A camisa da Lusa foi o chamariz.

– Derrubaram a gente, mas vamos resistir – falei num tom otimista.

– Claro, a Lusa é muito grande – respondeu o amazonense de Manaus que veio pra São Paulo tentar a sorte no futebol no final dos anos setenta do século passado.

– Vi grandes times da Lusa, todos com o jeito de jogar que vinha da base, da escolinha, bola no chão, jogo leve, bonito de ver – os olhos do Santana foram longe.

O papo de futebol coloriu a minha tarde de folga, papo puxado nas trombadas da vida com gente que você nunca viu, que tem histórias e casos pra contar. Gente da rua, do corre da cidade.

– O Canindé era minha segunda casa, não tenho origem portuguesa, sou nortista, mas esse time me encantou, eu nunca vou torcer pra outro time, time escolhido é pra vida toda. – o velho e bom amante do jogo de bola.

Apesar do dia de folga eu não tinha muito tempo, nem Santana, meu novo e instantâneo amigo, que parecia aflito pra chegar em algum lugar.

– Agora eu tenho que correr mais porque a grama secou e o campo é de terra, tô desempregado e tal, vou nessa, um dia a gente se vê no Canindé.

– Valeu parceiro.

Lá foi o Santana centro da cidade a adentro levando suas histórias e paixões. É por causa desses personagens que a Lusa nunca vai acabar.

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