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Arquivo mensal: agosto 2017

“A poesia brota do real” – conheci o escritor Carlos Felipe Moises em 2011 no projeto MundoLivro na Biblioteca Monteiro Lobato SBC.

Carlos Felipe foi na biblioteca falar de poesia, de Mario de Andrade, aquele que o fez descobrir e inventar o jeito de ser poeta.

” Todo poeta aprende poesia com outro poeta” – ao falar de Mario, ele terminou falando de São Paulo, de andanças pela cidade, de amor por suas ruas e tipos. A tarde voou, o público adorou e interagiu. A mediação perfeita.

Um cara simpático e generoso o Carlos Felipe. O poeta fã de Mario, da cidade de Mario, faleceu hoje à tarde.

 

Lá vem o lança-chamas

Pega a garrafa de gasolina

Atira

Eles querem matar todo amor

Corromper o pólo

Estancar a sede que eu tenho doutro ser

Vem do flanco, de lado

Por cima, por trás

Atira

Atira

Resiste

Defende

De pé

De pé

De pé

O futuro será de toda a humanidade

 

Oswald de Andrade

 

Viver a cidade é algo diverso, cheio de possibilidades. Existe a cidade coletiva que dividimos e disputamos. A mesma cidade pode ser intima, amiúde, internalizada. As duas se relacionam, se confundem, estão em nós e no outro, a mais nobre política se define nas tristezas e alegrias, nas decisões e vacilos da cidade.

Como diz David Harvey  a construção e a reconstrução das pessoas e da cidade se equivalem, e esse é o mais caro e o mais negligenciado dos direitos humanos.  Cada movimento público ou privado que desconsidere e impeça a possibilidade de decidirmos o destino das ruas em que andamos e vivenciamos as historias do dia a dia, é violência, é pavimento para a barbárie.

Um dos meus jeitos de vivenciar a cidade é fotografando, é o jeito individual e introspectivo. As vezes dividido, as vezes apenas íntimo. Escolho lugares, objetos, pessoas, composições. Um desses lugares é o Elevado João Goulart, o Minhocão. Aleijão, excrescência para alguns, funcional para a logica privada do carro, disfuncional para quem vive ao redor, útil para os desabrigados, espaço de lazer e convivência quando fecha no final de semana. É um rico manancial de imagens, desativado ou funcionando.

Num antigo Instagram que já desativei fiz uma série de fotos que dei título de “Nos Baixos do Elevado”, óbvio que retratei a parte baixa e os arredores do concretão. Os comentários de amigos e desconhecidos eram curiosos e expressavam a ambiguidade do Elevado para quem olha a cidade de formas diferentes. Uns diziam que eu corria perigo, outros não entendiam o sentido de eu fotografar “aquele aleijão”, outros tantos se surpreendiam com a beleza escondida.

O Elevado pode definir São Paulo e suas práticas. Inaugurado em 1971 de forma arbitrária, sem consulta, sem a anuência das pessoas, na ditadura e na lógica da corrupção de concreto e cal. A despeito de tudo isso, ele é parte da cidade, parte de sua crueza.  Com o passar do tempo as pessoas foram reinventando usos e olhares sob o Minhocão. Nos finais de semana caminham, andam de bike, se reúnem, fazem pic nic, passeiam. Toda essa gente que vive à sombra do concreto, usa o concreto para aliviar a solidão e a falta de opções de lazer e espaços de convivência que a cidade nos impinge.

O tempo corrói o concreto, vigas e as ferragens, ao mesmo tempo que recrudesce o autoritarismo. Em 2017, quarenta e sete anos depois da sua imposta inauguração, o Elevado que foi Costa e Silva e que acertadamente se transformou João Goulart, tem mais um capítulo do autoritarismo inscrito em seu gigante corpo. A gestão do Prefeito Dória sob os auspícios do Ministério Público, mandou colocar portões de ferro para restringir o uso de pedestres nas horas de lazer inventada pela cidade. É o coroamento da imposição que fez nascer a construção que vai do Largo Padre Péricles até a Praça Roosevelt.

Há justificativas para o portão de ferro, algumas até plausíveis, o que não desmancha o caráter autoritário e confinatório do ato. Contestar a existência, os modos de uso, revisar seus fluxos, decidir novos caminhos para o Elevado, será sempre legítimo. Porém a marca de imposição nessas decisões fica sempre patente, seja em 1971 na sua construção (Maluf, milicos, concreto) , como nas restrições do seu uso (Dória, promotoria, portão).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Por que se tolera e fomenta a “cadela fascista” (o termo é do Brecht, é bom avisar pra evitar ataques normativos)?

A ira neonazista descarada, os PMs bolsonaristas, os livres pensadores data vênia (do MP e STF), os filhotes de Narloch, Olavo de Carvalho, antes exóticos agora comparados à demiurgos do Brasil, os twitteiros e youtubers deformadores e os discípulos de Hayek e Mises, não saíram do nada e operam dentro de uma lógica.

Por mais que os pensadores avançados da esquerda queiram vencer a batalha simbólica antes da vulgaridade eleitoral, as eleições vão ser o grande passo legitimador do golpe e da hegemonia direitista. Foi assim com Trump nos EUA, com Dória em SP, venceram nas urnas. Simbólico e material se juntam num movimento rápido, quem parar pra separar o joio do trigo será atropelado.

A marcha galopante da direita deslavada reforça um temor que funcionou perfeitamente no pleito francês. Macron, um ultraliberal, surgiu como alternativa racional à Marine Le Pen, ultradireitista. É o mesmo fenômeno que coloca o opus dei Geraldo Alckimim como opção da “direita civilizada” na eleição de 2018, o que prova ainda mais busca de uma legitimação eleitoral.

É nesse sentido que as demonstrações explícitas e violentas de nazismo, a iconoclastia contra símbolos da esquerda, a violência contra minorias, a blitzgrieg da escola sem partido nos municípios, o revisionismo histórico e as demais saídas à direita são toleradas e bem vindas por uma certa direita liberal.

A ultradireita conquista seus espaços no grito e no susto, derruba bandeiras históricas da esquerda, emplaca leis e regulamentações que até há pouco eram impensáveis e nessa escalada cria a demanda por uma direita mais civilizada. Tudo tão democrático e limpinho.

Tenho medo, pavor do saudosismo. Volta e meia me flagro voltando. É recurso, é saída, desafogo.

Quando olhamos pra trás, reinventamos, reciclamos, viramos ao avesso, redefinimos fatos, omitimos.

O passado muitas vezes é cúmplice dos desesperos do presente.

Quinta feira última, madrugada, saímos eu e o João Luiz Marques de um evento na Praça Roosevelt, frio, o frio de São Paulo.

Não foram poucas vezes que estive naquele lugar, em tantas outras madrugadas. Saímos da Roosevelt, e no caminho curto até a esquina da Araújo com a Consolação, vários pedintes, três, quatro, cinco rostos tristes, desesperados, ameaçadores. Pedindo comida, dinheiro, atenção, aquelas histórias todas juntas largada na rua.

Senti saudade de um medo antigo, medo de atravessar aquelas mesmas ruas, receoso de assalto, de violência, mas que não me impediu de conhecer cada palmo do centro em várias madrugadas.

Hoje, o medo é outro. Ele vem carregado de uma miséria maior, mais que pensada, planejada. Aqueles pedintes não são inimigos, mas são o nosso medo coletivo.

A madrugada acabou num UBER de volta pra casa. Protegido no vazio social do UBER.

"Sampaio – Mas você acha que te consideram maldito, ainda?

Melodia – Eu sou maldito. Sou cria do Morro do São Carlos. Não reparem nisso, não! Cria do Morro do São Carlos. Já antes de fazer música, antes de tudo, todos os quilombos já eram malditos. Então, pronto! Só que faço música. Acho que faço músicas legais."

O Dafne Sampaio e uma turma boa turma mantinham um site de entrevistas chamado "Gafieiras" no comecinho desse século, saudade. O trecho acima é de uma entrevista do Luiz Melodia no Gafieiras em 2002. A resposta ao rótulo de maldito.

Maldito é o país que nutre essa pecha de malditos, que cultiva exclusões.

A música brasileira é quase toda negra. O que não é deve tributo. Dizer isso não é resgate ou concessão, é puramente se reportar aos fatos. Os compositores negros de Joaquim Callado a Emicida fizeram a forma e a forma da música brasileira.

Rotular os malditos é uma oportunidade da indústria colocar na caixinha quem não se entende dentro dela. Itamar Assumpção vociferava, Macalé manda se lascar, Melodia na resposta acima até que foi doce.

Em dado momento (anos 80, 90) falar de maldito era charmoso, só não combinavam com o artista. Maldito não tocava no rádio , como falar disso hoje?

Nunca mais usei o rótulo maldito, muita gente insiste. Com a morte de Melodia essa discussão retornou. Passou da hora de parar de amaldiçoar nossa gente.

Foto do Dafne Sampaio

Sempre adiei minha vinda pra Florianópolis. Nunca me animei. Imaginava um lugar de surf e flower power de butique. Tô aqui. Peguei carona na vinda da minha companheira (Gabriela) e do amigo (Thiago) para o Fazendo Gênero na UFSC. Lugar lindo, diverso, altas paisagens. Um contraponto para o momento político.

Mas é justamente o momento político e a devassidão que nos rodeia que me persegue. Não há paisagem que suporte encobrir e fazer esquecer.

Drama? Não mesmo.

Quando eu adolescia no final da ditadura, eu ouvia falar em barra pesada. A barra pesada da ditadura. A escuridão da tortura e da perseguição. Não sabia traduzir.

Cresci politicamente na abertura, na decadência da ditadura. Tudo era esperança, tudo tendia ao avanço. Nós queríamos mais. Volta do exílio, o PT nascendo, shows ao livre. A esquerda dando o tom da voz pública.

Diretas, constituinte, primeira eleição direta, combater FHC, eleger Lula, Lula, Dilma. Golpe.

Em pouco mais de um ano voltei trinta anos atrás. Vejo e sinto claramente a barra pesada. Ela pesa na real, penso que seja diferente da barra dos militares. Hoje vem travestida de legalismo, troca de farda por terninho preto.

Claro que os ternos pretos sempre foram artífices de todas barras pesadas, mas agora estão à testa.

Eu aqui, na terra bonita, sul da ilha do sul. A barra pesada é um contraponto, ela agora é clara. Cresce todo dia.

Meus amigos sentiram o golpe. Uns perdem o juízo, perdem amores, perdem emprego. Nossos poetas, músicos, pensadores perdem a vida. Sim, sim aqueles que cantaram a abertura, a democracia e a esperança estão indo.

A ditadura e o golpe de 2017 são mais cínico, da mesma gente sórdida de sempre, armado com a moral e o legalismo. A direita avança e perde cada dia mais o pudor. Estamos numa sinuca de bico, não sabemos ainda como resistir. Parei pra pensar, na vida e na política nessa beleza de lugar que nunca vi. A volta não tarda, logo vou embora.

“Tabuletas
Grandes letras feito eu
Abundantemente breu
Abundantemente fel
Ninguém morreu
Ninguém morreu
Ninguém morreu

Desde cedo aprendi a lembrar música. Sem toca discos, gravador, walkman, iPod, Spotify. Música vive na minha cabeça. É só beber na fonte algumas vezes que algumas delas grudam na memória e voltam. Tem uma lista dessas lembranças grudadas.

Luiz Melodia, cantor e compositor carioca, emplacou algumas nessa lista, fácil ele foi colando na trilha da minha vida. Descobri o Melodia em 1975, na trilha sonora da novela Pecado Capital. Eu e o Brasil, descobríamos o compositor do Estácio através de Juventude Transviada.

Dois anos antes ele havia gravado seu álbum de estreia, Pérola Negra, com o auxílio luxuoso de Wally Salomão e a aproximação dos tropicalistas e da marginália que se resistia no mesmo passo que se escondia das mazelas da ditadura.

O negro do Estácio que se recusou a se fechar no samba, mas que reverenciava o samba sem esquecer blues, reggae, soul e as aberturas do pós tropicalismo. A indústria fonográfica acolheu.

À lista novamente: a introdução samba/ blues que Perinho Albuquerque faz em Juventude Transviada é um dos hits da minha lista imaginária. Vieram outras: Pérola Negra, Onde o Sol Bate e se Firma, Memórias Modestas, Dores de Amores, Presente Cotidiano…

Foi nos anos 80, na adolescência e saída dela, que Luiz Melodia se firmou como trilha da vida. E aí vieram moças que amei, que esqueci, que me esqueceram, que nem souberam, que disseram não. Tava lá o Melodia ajeitando chegadas e partidas.

São aquecidas e reconfortantes as músicas que nos acompanham e o privilégio de tê-las sem precisar toca-las é impagável. Elas ficam com a gente.

Luiz Melodia teve uma carreira errática, surgiu nos anos 70 como prodígio, caiu nas contradições do sucesso que a indústria concede e retira sem emoção, caiu no ostracismo, lhe puseram o rótulo de maldito, voltou nos anos 90 com releituras e algumas inéditas, experimentou merecido prestígio e sucesso, mas sem o viço inicial

Há tempos deixei de ouvir o Luiz Melodia, na verdade eu deixei de ouvir muita coisa. No entanto, a biblioteca de memórias musicais grudada na cabeça funciona a pleno vapor. Vire e mexe me pego lembrando, ouvindo, sorrio e vem tristeza.

O tempo muda as coisas. É tão óbvio, mas nem por isso deixa de doer. Vão embora os músicos, os caras das letras, gente que te ajudou a viver mais docemente. O tempo.

Luiz Melodia nos deixou nesse 04 de agosto, 66 anos. É dele parte da minha biblioteca de lembranças musicais. Vai comigo até o dia que lembranças, reminiscências e melodias não fizerem mais sentido.


Foto: Nego Júnior

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